Capítulo 1 do Volume 2: O começo e o fim (Controlados)

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O começo e o fim
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Volume 2
Parte 1
Número 1
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Em "O começo e o fim", primeiro capítulo de A Guerra da União, ...

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Personagens[editar]

A fazer

Capítulo comentado[editar]

Cuidado! Você pode sofrer spoilers para o Volume 1 da Série Controlados se continuar a ler! Para ler a Série Controlados, é gratuito: leia online ou baixe o livro em PDF ou ePub neste link.

Fecha-se a porta do quarto. A luz ainda se esmagava, se humilhava para emprestar seu tom de mel à entortada mobília carmim da qual Anabel não tinha orgulho, mas tampouco tinha vergonha.

Seus dentes cor de creme compunham o sorriso enviesado enquanto, sentada na cama, apoiava-se no forro macio e alaranjado. Expôs de mansinho o lado direito do pescoço sem fissuras. O cabelo vermelho balançou para o lado, melindroso, diante daqueles outros dentes que surgiam debaixo de olhos sinceros, fixos, loucos que atravessam a carne da companheira. Ele já abandonara as roupas; ela também.

Encontrou um lugar para si com o joelho, recostando-se a ela por trás. Cada pedaço de pele encontrava seu par, ou assim queria fazê-lo: suas mãos subiam pelos braços dela enquanto os lábios encontravam os melhores espaços do pescoço para descansar, descansar, descansar antes de mudar de ideia e beijá-la de baixo a cima, chegando ao lóbulo da orelha com hesitação mínima, calculada com todo o engenho para fazer o coração pular uma batida.

Anabel não fingiu estar sem pressa. Tirou os cabelos da nuca com as mãos, fechou os olhos, encolheu a barriga arrepiada enquanto as mãos mornas de Gustavo faziam dali um novo lar; seu novo parque, seu novo ardor.

A natureza da relação

No capítulo extra do Volume I "Importâncias", ficamos sabendo por que Anabel quer seduzir Gustavo: é parte do plano de seu pai para que ela aprenda as técnicas preculgas. Contudo, uma pergunta que estará sempre presente ao olhar para a relação dos dois depois de saber que Anabel manipulou os sentimentos de Gustavo, é: nem um pouco do sentimento dele por ela é verdadeiro? Ela tem algum sentimento por ele, a despeito do que fez ou ainda por causa do que fez? Esse é o tipo de coisa que provavelmente ficará sempre aberto à interpretação, dependendo de evidências, falas e pontos de vista dos próprios personagens que podem nunca estar "prontos" --- mesmo que Anabel diga algo, pode ser sua visão daquilo no momento, e não necessariamente representar fielmente algum trecho do passado.

Tudo muito diferente da prisão ocre em que Anabel estava.

A não ser, talvez, pela amarelidão da cela subterrânea que podia ter provocado, afinal, a memória em primeiro lugar.

O ar traiçoeiro da noite se desfazia com a vitória de Roun --- ela podia senti-lo, mesmo longe da janela. Estimou que na sala em que estava caberiam umas trinta pessoas, se bem apertadas.

A porta que ela encarava há horas tinha duas fechaduras, uma perto do topo e outra da base. Quando um quadrado próximo ao chão de terra mal tratada abriu num deslizar para cima, um prato acobreado com pão, gordura quente e sal vermelho foi empurrado para dentro da saleta.

Dirigiu um único olhar para o pão antes de ignorá-lo. Abraçava as pernas, suspensas em um banco duro acoplado à parede de pedras rubras atrás de si. Não confiava naquela comida.

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Os mesmos policiais sem uniforme que vieram prendê-la na noite passada vieram buscá-la. Estavam aglutinados no corredor além da porta, tampando o já fraco vento que vinha da única janela do lugar. Ao vê-los, Anabel repensou seu espaço: talvez naquela cela não coubessem nem mesmo dez pessoas.

Controlou a respiração, olhando e se deixando olhar. Infelizmente não era o olhar de Gustavo, que tanto adestrara. Monitorava seu castelo em Neborum com zelo total; fechara as janelas, escurecera as salas, instalara novas trancas na porta.

Acompanharam-na pelos corredores do prédio-prisão dentro do círculo coeso que seus corpos formavam; ela mal conseguia andar sem ter que medir os passos para não tropeçar em quem estava à frente.

O motivo da formação

Essa forma de escoltar magos, que posteriormente será usada também com Tadeu, está relacionada não apenas à restrição de movimentos do corpo físico dos escoltados, mas também ao "cercamento" de seu castelo e Neborum. Como a representação da posição dos castelos costuma refletir as posições relativas entre as pessoas em Heelum, esse esquema de movimentação permite que os policiais criem um círculo de castelos em volta do castelo escoltado.

Chegaram a uma porta no final de um curto corredor no que parecia ser o segundo andar; a formação se abriu pela frente e os cinco recuaram, bloqueando a passagem de volta.

Antes de entrar, sentiu o iaumo do entrevistador tão colado à porta de seu castelo pelo lado de fora quando o seu pelo lado de dentro. Apertou os dedos sobre a ranhura do portão, alerta.

A luz na sala era fraca. Uma cortina de goma escura aquietava o sol com seu peso, e um minério de luz vermelho que brilhava muito pouco jazia bagunçado em cima do que parecia ser uma mesa.

--- Sente-se, Anabel. --- Disse o delegado.

Anabel sentou, analisando o que conseguia ver: cabelos e olhos escuros, um meio sorriso costurado no rosto --- involuntário, fazia parecer que nasceu sorrindo amarelo e não conseguia mais parar. Seu casaco azul-marinho aparecia mais àquela luz que seu rosto cheio de pelos aleatórios nas sobrancelhas. Não o sentia mais tão perto em Neborum.

--- Foi Jorge quem fez a sua denúncia. Ele é um mago competente... Conheço ele. Confio nele.

Anabel comprimia os olhos sem perceber. Tanto em Heelum quanto em Neborum.

--- E ele disse que você fez um ataque misto contra ele.

--- ... Acho estranho que ele sabia onde eu morava.

--- Ele era seu médico.

--- Nunca fui paciente dele! --- Respondeu ela, virando o pescoço para encarar o homem de lado.

--- Ele tem anotações sobre você de mais de uma estação atrás.

"Desgraçado. Ele planejou essa prisão mais do que eu pensava."

Planejamento

No final do Volume I ([sc name="cap59long"]) Jorge de fato dá a entender que já sabe da relação entre Anabel e Gustavo há algum tempo. Paciente e inteligente como era, soube construir uma narrativa que gerasse uma denúncia forte o bastante contra ela, ao invés de simplesmente fugir ou matá-la, por exemplo.

O delegado pôs as mãos abertas sobre a mesa. Paralelas, igualmente distribuídas, com as palmas para baixo; Anabel viu unhas bem cortadas e uma pele enrugada.

--- Então vamos lá, Anabel. Qual é a sua tradição original e qual você aprendeu depois?

As pupilas do interrogador brilhavam, e Anabel queria arrancar a garganta dele para não ouvir mais sua voz doce, levemente rouca, que não demoraria meio segundo para condená-la à morte.

--- De que cidade você é, Anabel? --- Insistiu ele, com a boca continuando aberta pela metade. --- Você é daqui?

--- Quero falar com o meu namorado.

O delegado fechou a boca e tirou as mãos de cima da mesa. Rolou de volta para a escuridão do encosto da cadeira, ponderando o pedido.

--- Quem é o seu namorado?

--- Tadeu.

Primeiro se moveu, como se tremesse de frio por um instante. Aproximou-se, ficando mais perto que nunca da luz débil do minério vermelho. Ela podia ver a confusão que se alastrava por seu corpo, partindo das pálpebras e chegando no cuidado com o qual as mãos apoiavam-se, cautelosas, na mesa que o separava dela.

--- Que Tadeu?

Em Neborum, permitiu-se sorrir.

--- O filho do parlamentar Galvino.

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Quando Amanda abriu a porta, não sabia que receberia aquele tipo de Gustavo. Ele permaneceu de pé depois que entrou, cerrando os punhos como se suportasse alguma dor.

--- Você me invadiu. --- Começou ele.

Amanda franziu o cenho.

--- O quê? --- Defendeu-se, balançando a cabeça. --- Não!

--- Se duplicou, queimou minha porta e me invadiu.

Amanda tentava conectar uma coisa à outra, mas ficava irritada por falhar.

--- G-Gustavo, eu sou preculga, eu não uso fogo! E eu n-não sei o que é duplicar, eu não...

Parou. Se de início presumiu que ele fosse continuar parado na sala, relativamente inofensivo, chegou em Neborum a tempo de vê-lo fechar a porta do castelo dela pelo lado de dentro.

Segurou-se à escada circular para não cair; as luzes do sol de Neborum distorciam-se com sua atenção indecisa. Conseguiu se concentrar o bastante para ver o sorriso malicioso que a forçou a voltar a Heelum, só para garantir que ele não fazia nada lá.

--- Gustavo, por que... --- Começou ela, em Neborum.

Ele avançou. Da mão direita voltada para trás surgiu uma espada longa, e Amanda fez um punhal saltar da mão trêmula, desenhando um arco no ar enquanto caía com o antebraço esquerdo por cima da cabeça. As lâminas colidiram; e Amanda sentiu um corte no braço.

Esgueirou-se para perto da parede circular, mais assustada que sentindo dor --- não fazia ideia do que acontecia com sangramentos no iaumo. Gustavo cravou a espada no chão pelo qual Amanda se esquivava, tentando se levantar. As pedras redondas atrapalhavam sua subida, a desequilibravam, até que com um impulso desesperado ela conseguiu velocidade para ir até o outro lado do saguão.

Gustavo foi atrás dela tão rápido quanto ela fugiu. Amanda jogou o punhal nele de qualquer jeito, que ele tirou do caminho torto com a própria espada.

Pensou no mesmo aço que compunha o punhal abrindo-se num escudo que cobrisse seu corpo por inteiro --- recitava na cabeça que queria um grande círculo plano o bastante, metálico, com seu dedo de espessura, sem detalhes, sem desenhos, sem marcas...

Parou de se esquivar e se deixou cair no meio da sala: o ataque vertical de Gustavo chegava para atingi-la no tronco. Um enorme escudo expandiu-se a partir do próprio centro na barriga e bloqueou a lâmina quando ela chegava ao destino.

Gustavo olhou o escudo e sorriu enquanto recuava, fazendo a espada encolher até sumir.

Em seu lugar surgiu um longo machado, a grossa cabeça pendendo para o chão e fazendo subir o cabo que Gustavo pegou com a mão esquerda. Amanda não sairia de baixo do escudo enquanto pudesse, mas ele tinha pressa.

Descreveu um arco por cima de si, urrando ao fazer o esforço final, uma mão escorregando até bater na outra. O escudo estilhaçou com força por cima do iaumo desconcertado de Amanda no chão.

O sorriso bobo queimou quando Amanda o empurrou em Heelum; recuperou-se da surpresa e, na feição mais enraivecida que Amanda já havia visto em alguém, foi até ela e puxou seu cabelo, pondo-a de joelhos.

Gustavo já refazia a espada em Neborum quando parou, sentindo um impacto nas costas; sua visão escurecia enquanto observava o impreciso iaumo de Barnabás, com um arco na mão, parado à porta aberta.

Qual era o plano de Gustavo?

Gustavo, mesmo nervoso como estava, provavelmente tomou o cuidado de, ao andar em volta da casa por vários ângulos, verificar se Barnabás estava em casa - ou isso ou se certificou ativamente de que ele estava em outro lugar. De qualquer modo, com o pai de Amanda fora de cena, ele poderia investigar o castelo de Amanda; ao invadir sua sala verde, talvez saberia se valeria a pena denunciá-la à comunidade mágica. Em caso contrário, saberia que há algo de mais estranho na história --- mas em qualquer caso, ele ainda poderia influenciá-la a fazer algo por ele, algo de valor estratégico posterior, no caso de ele querer resgatar Anabel.

Largou Amanda, olhando neurótico para todos os lados até encontrar o parlamentar na porta de entrada. Disparou por ela sem pensar se ele tentaria pará-lo, deixando Amanda no chão com a mão nos cabelos magoados.

Ela suportou só um olhar do pai antes de correr escada acima, ecoando soluços pela casa.

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Tadeu diminuiu a velocidade na descida das escadas quando viu que havia visitas à porta. Galvino olhava para ele com uma curiosidade que certamente tinha por função reprimir, só pelo tempo absolutamente necessário, alguns berros. Do umbral o provável grupo de magos o observava fixamente.

--- O-o que foi?

--- O delegado quer falar com você, filho.

--- Polícia? --- Reagiu Tadeu.

--- Não exatamente...

Polícia especial

Eles (estes policiais, que cuidam da separação entre as tradições e outros crimes interiores à comunidade mágica) podem ser chamados de policiais, mas são em geral reconhecidos como uma força diferente.

Um dos homens na companhia de magos abriu espaço e fez um gesto com a mão, convidando-o a passar. Tadeu chegou até eles, e logo os magos o acompanhavam com firmeza, cercando-o por todos os lados.

No outro dia tudo havia se encaixado: o fracasso de seu plano inicial tinha sido completamente esquecido. Ele e Amanda ajudariam Anabel e Gustavo, e seriam ajudados de volta. Teriam disfarces perfeitos para se encontrarem e continuarem a viver do jeito que quisessem. O futuro sombrio que tinha se acostumado a visualizar com tanta facilidade nos últimos dias virou tola preocupação.

Mas ali estava ele, indo falar com "o delegado", seu corpo sitiado, seu pai silenciado.

Visitou Neborum. O castelo do pai, longe do círculo das robustas construções em volta da própria, estava fora de alcance --- os iaumos dos magos que o escoltavam estavam à frente de sua porta, garantindo passivamente que ninguém ali entrasse.

Ou, talvez, que ninguém dali saísse.

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--- Tadeu, eu vou ser direto... Talvez indiscreto. --- Disse o delegado. --- Você tem uma namorada?

Tadeu estava preocupado demais com Neborum para prestar total atenção à conversa. Sabia que corria o risco de parecer um tolo em Heelum, mas não podia ignorar o que estava acontecendo. Olhou por todas as direções pelas janelas de seus andares mais altos, mas não conseguia mais encontrar o castelo de Anabel que podia jurar ter visto naquele prédio que parecia uma prisão.

Girou os olhos na direção da pergunta.

--- Não.

--- Anabel disse que você é o namorado dela.

Tadeu sentiu uma tontura ligeira, um arrepio no ombro direito --- fingiu não sentir nada, mas a garganta começava a secar. A cabeça pesou. Pendeu para frente um pouco. Corrigiu-se.

Suas costas doíam. O maxilar incomodava.

Não percebeu de imediato como estava difícil respirar.

--- A-Anabel e-era... --- Resistiu ao impulso de fazer tremer a perna esquerda. E de olhar para o pai. --- E-era uma amiga.

--- Não era uma namorada?

--- Não era uma namorada. --- Repetiu ele.

Galvino levantou-se de supetão, inclinando-se para frente. A ponta do dedo indicador ficando perto do rosto do delegado, que continuava impassível.

--- Ela deveria ser executada imediatamente pelas MENTIRAS que está contando! Isto é um ABSURDO!

O delegado riu, cantando agudo uma mensagem que lia "por favor!". Relaxou na cadeira, desviando o rosto enquanto deixava drenar a diversão que tirara do acontecido.

--- Ora, sente-se, Galvino. Deixe de teatro. --- Já parecia mais amargo enquanto Galvino sentava-se com a mesma postura de antes. --- E você conhece as regras, sabe que é assim. Ela aprendeu outras técnicas, então deve ter sido de alguém de Al-u-ber. Eu só quero descobrir quem é. Ela resiste, e como eu sou espólico, achei que o seu filho pudesse me dar umas respostas mais rápido que eu.

--- Quem fez a denúncia? --- Perguntou Galvino.

--- Jorge. Um médico preculgo.

Pai e filho balançaram a cabeça. Tadeu não fazia ideia de quem era aquele homem.

--- E onde estão os pais dela?

--- Os policiais que fizeram a prisão disseram que ela só tinha o pai, mas ele conseguiu fugir.

"Fugir daqueles cinco magos?", pensou Tadeu, levantando as sobrancelhas.

--- Gostaria de falar com ela, Tadeu?

--- Ele não gostaria. --- Atravessou-se o pai, respondendo por ele.

--- O seu filho pode ajudar, Galvino... Deixe ele entender o que significa fazer parte da comunidade.

Tadeu não tinha dito nada ainda, mas estava louco para concordar. Naquela situação, contudo, não queria contrariar o pai. Galvino olhava para baixo, como se preparasse uma resposta elaborada --- mas deve ter reconsiderado, porque apenas balançou a cabeça, fazendo o delegado sorrir de novo.

--- Então, Tadeu... Gostaria de falar com ela ou não?

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Quatro dos magos que o haviam buscado em casa estavam em algum lugar no corredor atrás dele; um deles segurava as chaves da porta da cela, tinha a mão na maçaneta, e esperava que Tadeu desse o sinal para deixá-lo falar com a prisioneira.

Em Neborum, o castelo de Anabel estava próximo, ainda que silencioso. Mesmo assim, sabia que a amiga sentia sua presença.

Ele olhou mais uma vez para o mago segurando a porta, desgrudando um pouco os olhos da mesma direção estanque.

--- E-eu... Queria ficar sozinho com ela.

Aquilo não ia ajudar se queria convencê-los de que não era namorado dela, pensou Tadeu.

O mago balançou a cabeça para os lados.

--- Ela é perigosa.

Tadeu pensou rápido, sua mente formigando para achar uma solução. Eles também estariam em Neborum, prontos para entrar em ação caso ela saísse do castelo --- lugar que provavelmente defendia com todas as forças desde que foi presa. Não podiam conversar lá.

--- Vocês podem... I-ir um pouco para trás? Desde que v-vocês consigam ficar perto em Neborum, está bom. P-para me proteger.

O mago fez que sim com a cabeça, destrancou a porta e deixou Tadeu passar.

Por que a mudança?

Porque o policial mago que não concordou com o pedido concordou com o segundo? Uma teoria é que alguém, ou Tadeu (improvável) ou Anabel (também pouco provável) tenha atacado-o magicamente. A segunda é que, como eles a revistaram e sabiam que ela não oferecia nenhum perigo muito imediato (como um objeto cortante), o maior perigo era justamente o mágico; e, desde que ficassem a uma distância em que ainda pudessem se fazer presentes por perto dos dois castelos, seriam efetivos na proteção de Tadeu. Além do mais, a ideia é que o delegado quer que Tadeu converse com ela; dessa interação muitos dados novos podem surgir, portanto seguir os desejos do visitante pode ser frutífero para a investigação.

Anabel se jogou em seus braços mais rápido do que ele pôde vê-la; o mago logo fechou as portas atrás dele e trancou de novo.

Tadeu ouviu passos.

--- Eu pedi para eles se afastarem... --- Quase sussurrou ele.

--- O que é que você vai fazer? Você tem que me ajudar!

O rosto da amiga parecia mais pálido; seus olhos, mais fundos, o roxo abaixo deles forte na pele fina e seca. Ela o segurava pelos ombros; ele mal encostava em sua cintura. Fios dos cabelos vermelhos dela se agarravam ao pescoço dele, retardatários do abraço.

--- A-Anabel, o que está acontecendo? S-seu pai fugiu!

--- Ah... --- Disse, perdendo o viço nos braços. --- Sim...

--- Estava tudo dando certo...

--- Sim...

Tadeu olhou para as paredes da cela. Tudo que sabia é que precisava ir embora.

--- O que eu posso fazer?

--- Diga a eles que é meu namorado. --- Explicou ela. --- Como a gente combinou antes, lembra? Sobre nós nos ajudarmos? Vamos seguir com esse plano!

O estômago de Tadeu se revirou. Ela estava condenada, e associar-se a ela...

Sua inocência seria presumida ou descartada?

--- M-mas Anabel, é a minha palavra contra a de um médico, u-um mago formado, mais velho, que...

--- Tadeu, se você não me ajudar eu vou morrer!

Tadeu passou a língua nos lábios, mas não conseguia molhá-los. Devia estar olhando para ela com o tipo de pena que se conseguia ao arquear as sobrancelhas no centro do rosto. Ela arregalava os olhos, mostrando com a boca semiaberta a necessidade de um braço que a tirasse daquele buraco.

Um segundo depois ela desfez o abraço, e a boca se fechou. Virou-se de costas. Tadeu já sentia-se um condenado; se não pelos magos, pela frieza por ela decretada ao sentar no banco no fundo da cela.

--- Se você não me ajudar eu confesso tudo, Tadeu.

Ela olhava para seus olhos, atravessando-os com mágoa. Não os desviou quando ouviu passos se aproximando da porta.

Como eles sabiam do fim?

Provavelmente não sabiam; algum deles apenas se aproximou, como precaução, e coincidentemente foi quando a conversa terminou.

--- Você tem até amanhã de manhã.

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