Capítulo 8 do Volume 1: Poder (Controlados)

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"Poder" é o oitavo capítulo da Parte I do Volume 1 da série Controlados (A Aliança dos Castelos Ocultos).

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Personagens[editar]

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O ex-soldado de sessenta e oito rosanos que, embora forte e alto, não gostava de vaidades, estava sentado à mesa com um copo de água. Enquanto seu rosto de traços duros voltava-se para a porta entre duas janelas na frente de sua loja, um menino, que não tinha sequer metade de sua altura, varria o chão. Estava concentrado, e não fosse pelo jeito preciso de limpar o assoalho da Maxim Minérios, poder-se-ia dizer que estava até mesmo triste.

Ex-soldado

Embora o termo "soldado" se refira a combatentes modernos em nosso mundo, aqui o termo também é aplicado aos lutadores à moda antiga --- no caso de eles participarem de um exército.

O lugar era estreito, mas comprido. Espremido entre uma grande loja de roupas e um restaurante, nunca houve razão para levar o empreendimento para outro lugar. A loja ficava bem no centro comercial da cidade, e sua fama atingia os quatro cantos de Heelum. Como não havia necessidade de atender dezenas de pessoas ao mesmo tempo, seu modelo de negócios ia bem. Da porta até o balcão ficavam duas mesas, com duas cadeiras cada uma, encostadas à parede de tábuas da esquerda. Por detrás do balcão, dispostas em várias prateleiras básicas de madeira, ficavam vários caixotes. Cada um continha um tipo de minério. Junto a eles, na prateleira mais alta, em um lugar em que caberia mais uma caixa, havia um grupo de minérios de cinco lados amarelos, que mantinham o lugar sempre bem iluminado. Atrás de uma porta com três fechaduras, entre todas estas prateleiras, ficava o estoque e uma cama improvisada para o garoto, Prior, que trabalhava para Maxim. Recebia seu pagamento na comida e no lugar para dormir. Devia se dar por satisfeito.

Com um gesto brusco, Prior parou de varrer e olhou para Maxim. O rosto, inexpressivo; a postura, reta. Maxim olhou para ele com seus olhos verdes acinzentados, que pareciam desprezar o garoto, e este devolveu o olhar de um jeito adormecido, mesmo sem sono.

Trabalho infantil

Prior é uma criança explorada. Vulnerável - seja lá por qual situação em que tenha nascido - ele trabalha para Maxim em troca do básico. Os magos espólicos podem ser particularmente cruéis quando escravizam alguém dessa forma, pois dominam as ações das pessoas. Prior, por exemplo, é uma marionete no controle de Maxim. Isso evita que o "trabalhador" resista a fazer algo, ou faça mal feito, ou lentamente --- Maxim controla com precisão tudo que ele precisa que Prior faça. Em algumas cidades esse tipo de coisa ocorre por debaixo dos panos, longe dos olhos da maior parte do povo central; em outras, as pessoas aceitam melhor a situação e, em geral, há grande desconhecimento sobre as condições de trabalho dessas pessoas (afinal, muitos não sabem como a magia funciona). Em geral, contudo, isso não é considerado uma situação ideal, posto que contradiz toda uma tradição de "ensinamentos da rede de luz" contra o trabalho infantil. Quando isto é melhor visto, é porque tem-se a ideia de que talvez os ensinamentos perderam muito de sua validade, já que a rede de luz se foi: os tempos são outros.

Maxim virou seu rosto em direção à porta, desperto; as gotas de chuva caíam no telhado e na fachada da loja, fazendo muito barulho e impedindo-o de ir para casa logo, mas ainda assim o homem pensou ter ouvido, em meio a tanto ruído, batidas na porta. Prestou mais atenção.

Por que ele não pode ir para casa

É estranho que um ex-soldado, aparentemente forte e destemido, não consiga ir para casa por causa da chuva. A questão é que a estrutura onde fica sua loja está passando por reformas, e ele queria ficar no local por mais tempo para poder agir caso a chuva causasse algum estrago.

Ouviu-as de novo; desta vez, mais fortes. Prior largou a vassoura, que bateu com estrondo no chão. Foi até a janela e, afastando um grosso pano, tentou ver quem estava em frente à porta.

--- Vejo só roupa preta. --- Comentou ele em um tom monótono.

Maxim levantou-se para verificar a situação ele mesmo, e Prior jogou-se com força contra a parede do outro lado, dando passagem. Havia, de fato, um vulto negro do lado de fora. A intensa iluminação noturna da Cidade Arcaica, toda em laranja, não ajudava a descobrir a identidade de quem quer que fosse. O visitante bateu outra vez.

--- Quem é? --- Perguntou Maxim.

--- Cinco velhos amigos. --- Respondeu uma voz masculina.

A senha

"Cinco velhos amigos" é a senha para que Maxim identifique quem é um membro do Conselho dos Magos. Isso é útil porque eles mantêm diversos negócios, mas Maxim pode não estar sempre informado quanto a novos membros.

Fechando os olhos devagar e soltando o ar pela boca, Maxim abriu a porta. O homem ainda desconhecido entrou, visivelmente encharcado, mas sem sinais de pressa. Ele vestia uma extensa capa preta, com várias camadas de tecido, e um gigantesco capuz que encobria todo o rosto. Virando-se para o anfitrião, tirou o capuz e revelou-se um jovem homem de curto e reto cabelo negro. Seu rosto, impecavelmente limpo e barbeado, era pálido e, num toque que concedia ao seu semblante algo de pitoresco, tinha lábios de um vermelho vivo e olhos de peixe morto tão escuros quanto o cabelo. Olhos que, altivos, não prestavam atenção em outra coisa que não os olhos seguros de Maxim.

--- Qual é o seu nome?

--- Desmodes.

--- Demoun?

--- Dê-môld --- Explicou ele a pronúncia, falando devagar.

Mago francês

Esse é claramente um nome inspirado na fonologia francesa, mas não significa que se esteja equacionando franceses a vilões. Cada cidade possui uma tradição própria para nomes - nomes que são modificações de nomes regionais de diversas partes do mundo.

--- De onde você vem, Desmodes? Quer sentar?

--- Obrigado.

Por fim quebrando o contato visual que havia mantido desde o início, o homem de preto puxou uma cadeira, sentando-se justamente de frente para o lugar que Maxim ocupava antes --- no qual este se sentou novamente.

--- Posso? --- Perguntou Desmodes, sem tirar os olhos de Maxim.

--- Fique à vontade.

Passando o bastão

A partir de agora o que ocorre é que Maxim e Desmodes "passam o bastão" um ao outro - ou seja, assumem o controle do iaumo de Prior. Ora um o controla, ora outro toma o controle. Desmodes pede licença para controlar o garoto porque quer pegar água; é mais fácil controlá-lo diretamente do que pedir a Maxim que o faça.

Prior, que continuava encolhido contra a parede, começou a andar. Passou pelos adultos, entrou na área atrás do balcão, pegou as chaves da porta do estoque e começou a destrancar a porta.

--- Venho de Jinsel.

--- Passou aqui antes de voltar ao Conselho?

--- Sim. Preciso de duas coisas.

Maxim tentava descobrir quais eram as intenções daquele mago. Ele dominou Prior sem sequer olhar para o garoto. Não que isso fosse difícil, mas ali estava um mago jovem demais para estar no conselho. E, no entanto, ele conhecia a senha.

--- Qual é a sua tradição?

--- Espólico.

--- Ora... Feliz coincidência.

Prior voltou à mesa com um copo de água, colocando-o em frente a Desmodes.

--- Preciso de um hexagonal prata.

Hexagonal prata

Um minério de seis lados; tem como efeito curar dores de cabeça. Clique aqui para ler um artigo completo sobre os minérios.

--- Esse deve ser o pedido fácil. Se me dá licença...

Desmodes concordou com um leve aceno, acompanhado de um breve pestanejar. Prior voltou a sair de perto dos dois, e voltou alguns segundos mais tarde com uma pedra prateada fosca. Colocou-a em cima da mesa e deu dois passos para trás; juntou as mãos em frente ao corpo e abaixou a cabeça.

--- Do que mais precisa? Aqui tenho quase tudo.

--- Uma heptagonal.

Maxim não tinha mais prestado atenção à chuva, mas o silêncio que invadiu aquele diminuto espaço em que eles estavam era algo diferente: não apenas a falta do que dizer, mas a necessidade de não dizer coisa alguma --- e, ainda mais imperiosamente, a de ter cuidado com o que se decide dizer. Nesse ínterim a chuva se fez mais presente, açoitando a Cidade Arcaica como raramente fazia.

--- De que tipo... Exatamente estamos falando?

--- Marrom e verde.

Heptagonal marrom e verde

Um minério de sete lados; tem como efeito matar pessoas por envenamento mediante uso "correto". Clique aqui para ler um artigo completo sobre os minérios.

Maxim colocou as mãos sobre a mesa, as palmas viradas para baixo. Balançando a cabeça negativamente, olhou para o próprio copo de água.

--- Infelizmente terei que dizer não. Não tenho o minério aqui e, aliás... Há muito tempo que não consigo achar quem o venda pra mim.

--- Eu não disse que era um pedido.

Maxim socou a mesa com as duas mãos, apertando-as em um punho fechado.

--- Você não sabe com quem está lidando... Eu vendo minérios pra vocês há mais de uma década e nunca um fedelho arrogante como você me ameaçou dentro da minha PRÓPRIA LOJA! Se você tentar me atacar, eu juro que vou matá-lo. E o conselho ficará do meu lado.

Por que tanta raiva?

Maxim está irritado por causa da arrogância de Desmodes, que parece jovem, poderoso, ambicioso e já um membro do Conselho dos Magos - o tipo de pessoa que acha que pode mandar em Maxim como se ele fosse um serviçal - ou seja, ele não gosta de se ver na (potencial) posição de Prior. Sua reação demonstra justamente grande repúdio ao que ele considera uma afronta: que não se reconheça, em cada intercurso social, que ele é um mago poderoso demais para que dele se possa "exigir" alguma coisa. Desmodes quebra essa expectativa, e isso o irrita.

Prior os observava, sem saber em qual dos dois deveria prestar atenção. Desmodes aproximou seu corpo da mesa.

--- Você não vai conseguir fazer nada sem os braços.

Maxim entendeu antes mesmo de tentar voltar a Neborum. Saíra de lá por um segundo, e ao voltar encontrou apenas escuridão.

Desmodes enfim sorria. Maxim não conseguia mover os braços. Olhou para eles, como se procurasse um modo de dar-lhes forças, mas isso não adiantava; tremiam como se o mundo tremesse, e seu antebraço doía como se tivesse sido profundamente perfurado. Ainda assim, sufocava em inanição, ofegando de medo; não encontrava forças para berrar por ajuda.

--- Eles... --- sussurrou ele --- Saberão...

--- Shh... --- Desmodes pôs o dedo em riste em frente à boca.

Maxim não percebera que Prior havia saído do lado deles. Ele voltava com uma outra pedra; desta vez, uma forma geométrica com sete lados e uma mistura caótica e opaca de marrom e verde distribuída por toda a superfície. Na outra mão, uma faca.

Usando o que o dominado sabe

Os espólicos controlam o corpo da pessoa, mas muita habilidade leva a mais que isso: é possível operar a partir do conhecimento do outro. Não acessá-lo: mas usá-lo para executar uma ação. Nesse caso, Desmodes não sabe onde os minéros heptagonais estão, mas Prior sabe; Desmodes o domina, e mesmo não sabendo onde estão, consegue dar uma ordem para Prior para que ele vá "até onde os minérios heptagonais estão", e Prior, sem resistência, vai até o local e pega os minérios.

--- O que... O que que... --- E então foi impedido de falar. Desta vez queria, precisava saber o que iria acontecer, mas apenas ao suor era permitido se expressar. Desmodes colocou as duas pedras em um compartimento interno das vestes e, posicionando o copo na mesa de forma a fazê-lo ficar mais perto de onde Prior estava, levantou-se e foi embora. Adentrou a chuva sem medo, e Maxim olhou uma última vez para Prior, prestes a cometer uma vingança que não planejara.

Ver também[editar]

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