As 200 músicas favoritas da minha vida até 2017

Este post está sendo retroativamente publicado em 2018, por ocasião da geração de uma nova lista.

Em 2012, quando eu tinha 20 anos, inventei um desafio pra mim mesmo: fazer uma espécie de “campeonato” que pudesse resultar em uma lista das minhas 200 músicas preferidas.

Afinal, é difícil responder à pergunta “qual é a sua música preferida?”. A escolha parece impossível se você pensa nisso por alguns minutos e lembra de possíveis “candidatos”. Eu queria ser alguém que não sabia apenas qual era a minha música preferida, mas quais eram as minhas 200 músicas preferidas. E em qual ordem!

Para saber mais sobre esse processo, leia a postagem contendo a lista com minhas músicas favoritas até 2012.

Dados da lista

Dessa vez, eu quis gerar algumas “estatísticas” sobre meu gosto musical, e também fazer comparações com a lista anterior. Na verdade, hoje até me surpreendo com a quantidade de características que reuni, até pelo fato de que fiz uma lista quantitativa e uma ponderada.

Os dados “ponderados” foram pensados pela seguinte lógica: há uma diferença dizer que 50% da lista é composta por músicas de rock e saber que essas ocupam as posições #101-#200. Ou seja, metade da lista é de rock, mas é a metade menos importante. Então, para ponderar os dados considerando o posicionamento na lista, para cada característica, uma música “contribuía” com ela com uma pontuação, esta sendo inversamente proporcional a sua posição. Então se a música número 200 era de rock, ela adicionava 1 ponto aos dados ponderados sobre quantas músicas de rock havia na lista. Já a música número 1, minha favorita, adicionaria 200 pontos. A “importância” do rock na lista viria da porcentagem de pontos que o gênero teria diante do total de pontos que se poderia obter na lista segundo esse sistema (20100).

O perfil das músicas favoritas

Falando em gêneros, eu categorizei as músicas por “Alternativo”, “Rock”, “Pop Rock”, “Indie”, “Pop”, “Eletrônico”, e “Trilha sonora” (gêneros que não estão aqui não estavam na lista). Eletrônico e Trilha sonora tinham apenas uma canção na lista, enquanto Alternativo foi o gênero mais numeroso, com 62 músicas. A importância dos gêneros mais e menos numerosos foi congruente – com eletrônico sendo mais importante (0,06%) que trilha sonora (0,01%) – mas o meio de campo sentiu a diferença: há mais músicas de “rock” (51) que “pop rock” (49), porém a importância do pop rock na lista foi de 25,51%, enquanto a do rock foi 21,73%.

Uma coisa que me incomodou na época e continua a me incomodar em 2025 foi que artistas e bandas completamente masculinas – especialmente com vocais masculinos nas músicas – são absurdamente mais frequentes que participações femininas, mesmo que p. ex. no baixo, na bateria, etc. Entre os artistas das 200 músicas, mulheres aparecem 10 vezes, e homens, 6 – porém bandas totalmente masculinas, 150, e com alguma participação feminina, 34. A ponderação não altera muito o cenário. Me pergunto se isso apenas reflete o estado da indústria musical, ou se outras pessoas, principalmente mulheres, teriam resultados semelhantes.

106 músicas vieram dos EUA, 40 do Reino Unido, e 29 do Brasil; dentre as outras, foi uma grande surpresa saber que 13 vieram da Suécia! 6 do Canadá, 3 da Irlanda, 2 da Austrália e 1 da França. A ponderação não altera o cenário. 85,5% das músicas eram em inglês, e o dado ponderado é muito próximo disso também.

Aí eu quis saber também em que ano e década as músicas foram lançadas. Meu “ano favorito”, musicalmente falando, foi 2008 (22 músicas), seguido de 2006 (21) e 2007 (15) – certamente anos formativos do gosto musical de qualquer pessoa (eu estava no fim do ensino fundamental e começo do médio). A ponderação revelou um cenário um pouco diferente, mas não muito: os anos mais importantes foram 2006 (13,19%), 2008 (10,44%) e 2005 (6,87%). Em termos de décadas, assim, não é surpreendente que os anos 2000 dominem a lista: 121 músicas (60,5% da lista) com 59,06% de importância. A década menos numerosa foi a dos anos 60, mas a menos importante foi a dos anos 80, e enquanto os anos 2010 (que ainda não tinham acabado) tiveram mais músicas na lista que os anos 90, os anos 90 foram mais importantes considerando a ponderação.

Inventei também uma categoria de “temas”, como músicas que falam sobre filosofia (?), política, morte, amor (de forma positiva), término de relacionamentos, contam uma história, ou são apenas para se divertir, etc. O tema mais frequente foi o amor (abordado positivamente), mas o mais importante foi filosofia (22,31%).

Quase metade das músicas tinha entre 3 e 4 minutos de duração, sendo também o contingente mais importante de canções. Apenas 5 músicas eram covers (2,37% de importância), 6 tinham “participações especiais” (2,77% de importância), 58 estavam associadas a memórias especiais que eu tinha tido até então (com uma importância acima de sua presença numérica, 33,34%), e 64 eu entendi serem “famosas” (com uma importância de 40,51%, bem acima de sua importância meramente numérica).

Artistas e álbuns mais importantes nesse momento

Os 4 artistas mais frequentes nessa lista foram “Someone Still Loves You Boris Yeltsin” (9 músicas), The Killers (9), Jimmy Eat World (8) e Fall Out Boy (7); My Chemical Romance, Billie the Vision & the Dancers, e Oasis empataram em quinto lugar com 5 músicas. Contudo, a ponderação revelou a ordem de artistas mais importantes, com uma ordem bem clara: The Killers (6,37%), Oasis (3,86%), The Beatles (3,78%), Jimmy Eat World (3,64%), e Billie the Vision & the Dancers (3,22%). Ou seja, os Beatles, por exemplo, tinham poucas músicas na lista, mas foram muito bem colocadas; Someone Still Loves You Boris Yeltsin tinha muitas mais, mas em posições inferiores. 70 artistas apareceram uma única vez na lista. O artista brasileiro mais numeroso foi Capital Inicial, com 4 músicas.

Em termos de álbuns, quatro álbuns ficaram empatados por ter emplacado 4 músicas na lista: “Let It Sway” e “Pershing”, da banda Someone Still Loves You Boris Yeltsin, “Invented”, de Jimmy Eat World, e “Sam’s Town”, do The Killers. A ponderação, agora, revela um cenário completamente diferente. O álbum mais importante foi “Oceans Will Rise”, da banda canadense The Stills (2%); em seguida “Let It Be”, com 1,97%; depois, “How To Save A Life”, de The Fray (1,84%), e, só para mostrar que o quarto lugar tampouco está conectado com algum dos 4 álbuns mais frequentes, “Folie A Deux”, do Fall Out Boy (1,82%). O primeiro dos álbuns mais frequentes a aparecer na lista por importância é “Sam’s Town”, em 6º. Ao todo, 27 álbuns emplacaram mais de uma música na lista; os únicos de artistas brasileiros foram o “Acústico MTV Capital Inicial” e “Uns Dias Ao Vivo”.

O que mudou no meu gosto musical?

É difícil responder essa pergunta quando olho para trás, considerando que as estatísticas que citei acima não foram feitas para a lista de 2012 (e 1 – não é agora que eu vou fazer; 2 – tampouco acho que serão feitas a tal nível de detalhe para a de 2024). Então não sei se passei a gostar mais ou menos de música eletrônica, por exemplo. Porém, uma coisa que anotei e achei muito interessante foram as transformações nas músicas presentes na lista: 99 músicas da lista de 2012 não marcaram presença na de 2017!

A mais bem colocada canção que saiu completamente da lista foi “”Índios””, do Legião Urbana. Ela tinha ficado em 13º lugar na lista de 2012 e em 2017 sequer foi considerada uma das minhas 200 preferidas! É bem louco pensar nisso – 6 músicas do top 50 de 2012 não ficaram entre as top 200 de 2017. Das 100 primeiras de 2012, 30 desapareceram.

Entre as que ficaram, houve muita mudança também. Das 100 primeiras de 2012, 46 seguiram entre as 100 primeiras; entre as 50 primeiras, 22 permaneceram no top 50. A música que mais caiu posições mas ainda conseguiu ficar na lista foi “All My Friends”, do LCD Soundsystem (caiu 134 posições). A que mais subiu posições desde a última lista foi “Faint”, de Linkin Park (102). A que melhor “entrou” na lista foi “The Long and Winding Road”, dos Beatles (já chegou na 4ª posição), mas considerando só as músicas que não existiam em 2012, estamos falando de “Ain’t It Fun”, do Paramore, que estreou na lista em 8º lugar. Das 99 músicas que entraram no top 200 em 2017, 13 não existiam em 2012; entre as 50 primeiras, apenas 2 não existiam em 2012. A música que tinha ficado em primeiro lugar em 2012, em 2017 ficou em 37º lugar. Por outro lado, o primeiro lugar desta lista tinha ficado em 3º em 2012.

A lista

      1. Sway
        • 🎤 The Kooks
        • 💽 Konk (2008)
        • 🆕 Nova na lista
      2. Drive It Like You Stole It
        • 🎤 Sing Street
        • 💽 Sing Street (Original Motion Picture Soundtrack) (2016)
        • 🐣 Não existia na época da lista anterior
        • 💬 Única trilha sonora original na lista
      3. Sultans of Swing
        • 🎤 Dire Straits
        • 💽 Dire Straits (1978)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Única música do Dire Straits na lista, e também a única de 1978
      4. Tears Dry On Their Own
        • 🎤 Amy Winehouse
        • 💽 Back to Black (2006)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Amy Winehouse aparece uma só vez na lista
      5. It’s My Life
        • 🎤 Bon Jovi
        • 💽 Crush (2000)
        • 🆕 Nova na lista
      6. Advertising Space
        • 🎤 Robbie Williams
        • 💽 Intensive Care (2005)
        • 🆕 Nova na lista
      7. Olhos Vermelhos
        • 🎤 Capital Inicial
        • 💽 Rosas e Vinho Tinto (2002)
        • 🆕 Nova na lista
      8. The Take Over The Breaks Over
        • 🎤 Fall Out Boy
        • 💽 Infinity On High (2007)
        • 🆕 Nova na lista
      9. Helena
        • 🎤 My Chemical Romance
        • 💽 The Black Parade (2006)
        • 👎 #116 na lista de 2012
      10. O Girlfriend
        • 🎤 Weezer
        • 💽 Weezer (The Green Album) (2006)
        • 👎 #136 na lista de 2012
      11. Made To Last
        • 🎤 Someone Still Loves You Boris Yeltsin
        • 💽 Let It Sway (2010)
        • 👎 #115 na lista de 2012
      12. Digital Love
        • 🎤 Daft Punk
        • 💽 Discovery (2001)
        • 👎 #155 na lista de 2012
        • 💬 Única música do Daft Punk, e da França, na lista
      13. Stop
        • 🎤 Jimmy Eat World
        • 💽 Invented (2010)
        • 👎 #119 na lista de 2012
      14. Você Vai Lembrar de Mim
        • 🎤 Nenhum de Nós
        • 💽 Paz e Amor (1998)
        • 👎 #37 na lista de 2012
      15. Sweet Child O’Mine
        • 🎤 Guns’n’Roses
        • 💽 Appetite for Destruction (1987)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Guns’n’Roses aparecem apenas uma vez na lista; em 2012, o fez uma vez também, mas com outra música (November Rain)
      16. Hole In My Soul
        • 🎤 Aerosmith
        • 💽 Nive Lives (1997)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Aerosmith aparece uma única vez na lista
      17. Epitáfio
        • 🎤 Titãs
        • 💽 A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana (2001)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música dos Titãs na lista
      18. Unwell
        • 🎤 Matchbox Twenty
        • 💽 More Than You Think You Are (2002)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música do Matchbox Twenty na lista
      19. Spiralling
        • 🎤 Keane
        • 💽 Perfect Symmetry (2008)
        • #102 na lista de 2012
      20. Educação Sentimental II
        • 🎤 Biquini Cavadão
        • 💽 80 (2001)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música do Biquini Cavadão na lista
      21. But It’s Better If You Do
        • 🎤 Panic! At The Disco
        • 💽 A Fever You Can’t Sweat Out (2007)
        • 👎 #149 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única música da banda Panic! At The Disco no ranking; em 2012 havia três
      22. Juxtapozed With U
        • 🎤 Super Furry Animals
        • 💽 Rings Around The World (2001)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música da banda Super Furry Animals no ranking
      23. Glue Girls
        • 🎤 Someone Still Loves You Boris Yeltsin
        • 💽 Pershing (2008)
        • 🆕 Nova na lista
      24. Kelly
        • 🎤 The Pains of Being Pure at Heart
        • 💽 Days of Abandon (2014)
        • 🐣 Não existia na época da lista anterior
      25. Retrace
        • 🎤 Anberlin
        • 💽 New Surrender (2008)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música da banda Anberlin na lista
      26. Letter Divine
        • 🎤 Someone Still Loves You Boris Yeltsin
        • 💽 Tape Club (2011)
        • 🆕 Nova na lista
      27. Five Becomes Four
        • 🎤 Yellowcard
        • 💽 Paper Walls (2007)
        • 🆕 Nova na lista
      28. Lovers and Liars
        • 🎤 Matchbook Romance
        • 💽 Stories & Alibis (2003)
        • 👎 #148 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única música da banda Matchbook Romance na lista
      29. Boulevard of Broken Dreams
        • 🎤 Green Day
        • 💽 American Idiot (2004)
        • 🆕 Nova na lista
      30. Underneath
        • 🎤 Hanson
        • 💽 Underneath (2004)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música da banda Hanson no ranking
      31. Modern Mystery
        • 🎤 Someone Still Loves You Boris Yeltsin
        • 💽 Pershing (2008)
        • 👎 #96 na lista de 2012
      32. Rainy Days Revisited
        • 🎤 The Hellacopters
        • 💽 By The Grace Of God (2002)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música da banda The Hellacopters no ranking
      33. Stop The World
        • 🎤 Demi Lovato
        • 💽 Here We Go Again (2009)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música de Demi Lovato no ranking
      34. Banned (By The Man)
        • 🎤 Someone Still Loves You Boris Yeltsin
        • 💽 Let It Sway (2010)
        • 👎 #77 na lista de 2012
      35. Electable (Give It Up)
        • 🎤 Jimmy Eat World
        • 💽 Chase This Light (2007)
        • 👎 #91 na lista de 2012
      36. Eu Sei
        • 🎤 Legião Urbana
        • 💽 Que País É Este? (1987)
        • 👎 #164 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única música de 1987 na lista; “Eu Sei” perdeu exatamente uma posição em relação à lista de 2012
      37. Young Volcanoes
        • 🎤 Fall Out Boy
        • 💽 Save Rock And Roll (2013)
        • 🐣 Não existia na época da lista anterior
      38. Heers
        • 🎤 Someone Still Loves You Boris Yeltsin
        • 💽 Pershing (2008)
        • 👎 #56 na lista de 2012
        • 💬 “Pershing” é um dos quatro álbuns empatados como mais frequentes na lista, com 1,09% de importância
      39. Tongue Tied
        • 🎤 Glee Cast
        • 🗓️ 2012
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música da série Glee na lista
      40. Good Riddance (Time Of Your Life)
        • 🎤 Green Day
        • 💽 Nimrod (1997)
        • 🆕 Nova na lista
      41. Always Be
        • 🎤 Jimmy Eat World
        • 💽 Chase This Light (2007)
        • 👎 #36 na lista de 2012
      42. Maior Abandonado
        • 🎤 Barão Vermelho
        • 💽 MTV Ao Vivo Barão Vermelho (2005)
        • 🆕 Nova na lista
      43. Wonderful World
        • 🎤 James Morrison
        • 💽 Undiscovered (2006)
        • #186 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única música de James Morrison na lista
      44. It’s Not Your Fault
        • 🎤 New Found Glory
        • 💽 Coming Home (2006)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música do New Found Glory na lista
      45. Bohemian Rhapsody
        • 🎤 Queen
        • 💽 A Night At The Opera (1975)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única canção do Queen na lista
      46. Wish You Were Here
        • 🎤 Pink Floyd
        • 💽 Wish You Were Here (1975)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta e “Bohemian Rhapsody” (#156) são as únicas músicas do ano de 1975 na lista (0,45% de importância)
      47. When You Were Young
        • 🎤 The Killers
        • 💽 Sam’s Town (2006)
        • 🆕 Nova na lista
      48. All My Friends
        • 🎤 LCD Soundsystem
        • 💽 Sound Of Silver (2007)
        • 👎 #19 na lista de 2012
        • 💬 LCD Soundsystem aparece uma vez só na lista, com esta música que, dentre aquelas que estavam na lista de 2012 e permaneceram entre as 200 melhores, mais perdeu posições
      49. I’m A Cuckoo
        • 🎤 Belle & Sebastian
        • 💽 Dear Catastrophe Waitress (2003)
        • 👎 #83 na lista de 2012
      50. You Can’t Fool Old Friends With Limousines
        • 🎤 The Thrills
        • 💽 Let’s Bottle Bohemia (2004)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música da banda The Thrills na lista; em 2012 também havia só uma, mas era outra (Old Friends, New Lovers)
      51. Overrated (Everything Is)
        • 🎤 Less Than Jake
        • 💽 In With The Out Crowd (2006)
        • 🆕 Nova na lista
      52. All I Ask
        • 🎤 Adele
        • 💽 25 (2015)
        • 🐣 Não existia na época da lista anterior
        • 💬 Só há duas músicas de 2015 na lista
      53. The Science of Selling Yourself Short
        • 🎤 Less Than Jake
        • 💽 Anthem (2003)
        • 👎 #44 na lista de 2012
      54. Comfortably Numb
        • 🎤 Pink Floyd
        • 💽 The Wall (1979)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Com duas músicas na lista, Pink Floyd tem importância de 0,5%; esta é a única música de 1979 no ranking
      55. Lovefool
        • 🎤 The Cardigans
        • 💽 First Band on the Moon (1996)
        • 👎 #54 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única música da banda The Cardigans na lista
      56. Teen Lovers
        • 🎤 The Virgins
        • 💽 The Virgins (2008)
        • 👎 #137 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única música da banda The Virgins na lista
      57. Your Ex-Lover Is Dead
        • 🎤 Stars
        • 💽 Set Yourself on Fire (2004)
        • 👎 #59 na lista de 2012
        • 💬 A pouco conhecida banda canadense Stars aparece só uma vez na lista
      58. She Is Losing It
        • 🎤 Belle & Sebastian
        • 💽 Tigermilk (1996)
        • #196 na lista de 2012
        • 💬 Belle & Sebastian aparece duas vezes na lista, com importância de 0,53%
      59. Primeiros Erros
        • 🎤 Capital Inicial
        • 💽 Acústico MTV Capital Inicial (2000)
        • 👎 #48 na lista de 2012
      60. Mirrors
        • 🎤 Justin Timberlake
        • 💽 The 20/20 Experience (2013)
        • 🐣 Não existia na época da lista anterior
        • 💬 Esta é a única música de Justin Timberlake no ranking
      61. The Sound Of Settling
        • 🎤 Death Cab For Cutie
        • 💽 Transatlanticism (2003)
        • 🆕 Nova na lista
      62. I’ve Got All This Ringing In My Ears and None of my Fingers
        • 🎤 Fall Out Boy
        • 💽 Infinity On High (2007)
        • 🆕 Nova na lista
      63. Go To Hell
        • 🎤 Billie the Vision and the Dancers
        • 💽 The World According To Pablo (2005)
        • 🆕 Nova na lista
      64. In Pairs | My Terrible Personality
        • 🎤 Someone Still Loves You Boris Yeltsin
        • 💽 Let It Sway (2010)
        • 🆕 Nova na lista
      65. Wherever You Will Go
        • 🎤 The Calling
        • 💽 Camino Palmero (2001)
        • 👎 #93 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única música da banda The Calling no ranking
      66. Stay Awake
        • 🎤 Billie the Vision and the Dancers
        • 💽 I Was So Unpopular In School and Now They’re Giving Me This Beautiful Bicycle (2004)
        • 👎 #43 na lista de 2012
      67. Everlyn
        • 🎤 Someone Still Loves You Boris Yeltsin
        • 💽 Let It Sway (2010)
        • 👎 #53 na lista de 2012
        • 💬 “Let It Sway” é um dos quatro álbuns empatados como mais frequentes da lista, o com menor importância entre eles (0,88%)
      68. End Of A Century
        • 🎤 Blur
        • 💽 Parklife (1994)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música de 1994 na lista
      69. Wrecking Hotel Rooms
        • 🎤 MxPx
        • 💽 Panic (2005)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música da banda MxPx na lista
      70. Let Me Go
        • 🎤 3 Doors Down
        • 💽 Seventeen Days (2005)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música da banda 3 Doors Down no ranking
      71. I’m Feeling You featuring Michelle Branch
        • 🎤 Santana
        • 💽 All That I Am (2005)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única aparição de Santana na lista
      72. Vento
        • 🎤 Jota Quest
        • 💽 De Volta ao Planeta (1998)
        • 👎 #71 na lista de 2012
      73. Eu Quero Sempre Mais featuring Pitty
        • 🎤 Ira!
        • 💽 Acústico MTV: Ira! (2006)
        • 👎 #78 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única aparição do Ira! na lista
      74. É Preciso Dar Vazão Aos Sentimentos
        • 🎤 Bidê ou Balde
        • 💽 É Preciso Dar Vazão Aos Sentimentos (2004)
        • #133 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única aparição da banda Bidê ou Balde na lista
      75. One Last Breath
        • 🎤 Creed
        • 💽 Weathered (2001)
        • 🆕 Nova na lista
      76. Love’s A Game
        • 🎤 The Magic Numbers
        • 💽 The Magic Numbers (2005)
        • 👎 #98 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única aparição da banda The Magic Numbers na lista
      77. Tarde Demais
        • 🎤 Aerocirco
        • 💽 Aerocirco (2003)
        • 👎 #81 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única música do Aerocirco na lista; na edição passada, havia seis
      78. W.a.m.s.
        • 🎤 Fall Out Boy
        • 💽 Folie A Deux (2008)
        • 🆕 Nova na lista
      79. Tão Seu
        • 🎤 Skank
        • 💽 Samba Poconé (1996)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música do Skank na lista
      80. Every Teardrop Is a Waterfall
        • 🎤 Coldplay
        • 💽 Mylo Xyloto (2011)
        • 👎 #67 na lista de 2012
      81. Forgive Me
        • 🎤 Evanescence
        • 💽 Sound Asleep (1999)
        • 🆕 Nova na lista
      82. Impossible
        • 🎤 Shout Out Louds
        • 💽 Our Ill Wills (2007)
        • #140 na lista de 2012
      83. With Arms Wide Open
        • 🎤 Creed
        • 💽 Human Clay (1999)
        • 🆕 Nova na lista
      84. Til We ain’t Strangers Anymore featuring LeAnn Rimes
        • 🎤 Bon Jovi
        • 💽 Lost Highway (2007)
        • 🆕 Nova na lista
      85. Só Hoje
        • 🎤 Jota Quest
        • 💽 Discotecagem Pop Variada (2002)
        • 👎 #112 na lista de 2012
        • 💬 Jota Quest, que aparece mais uma vez na lista ainda, tem importância de 0,78% no ranking
      86. Somewhere Only We Know
        • 🎤 Keane
        • 💽 Hopes and Fears (2004)
        • 👎 #99 na lista de 2012
      87. Adventure of a Lifetime
        • 🎤 Coldplay
        • 💽 A Head Full of Dreams (2016)
        • 🐣 Não existia na época da lista anterior
        • 💬 2016 conta com apenas duas músicas na lista
      88. Life in Color
        • 🎤 OneRepublic
        • 💽 Native (2013)
        • 🆕 Nova na lista
      89. Keep Your Head
        • 🎤 The Ting Tings
        • 💽 We Started Nothing (2008)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música da banda The Ting Tings na lista
      90. Hands on Fire
        • 🎤 The Stills
        • 💽 Oceans Will Rise (2008)
        • 👎 #86 na lista de 2012
      91. Imperecível
        • 🎤 Luxúria
        • 💽 Luxúria (2006)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música da banda Luxúria na lista
      92. Natasha
        • 🎤 Capital Inicial
        • 💽 Acústico MTV Capital Inicial (2000)
        • 🆕 Nova na lista
      93. The Good Life
        • 🎤 Weezer
        • 💽 Pinkerton (1996)
        • 👎 #39 na lista de 2012
        • 💬 Weezer possui mais uma música na lista; como banda, tem importância de 0,51% no ranking
      94. Karma Police
        • 🎤 Radiohead
        • 💽 OK Computer (1997)
        • #156 na lista de 2012
      95. For Reasons Unknown
        • 🎤 The Killers
        • 💽 Sam’s Town (2006)
        • 🆕 Nova na lista
      96. Scared To Be Lonely
        • 🎤 Twenty One Two
        • 🗓️ 2017
        • 🐣 Não existia na época da lista anterior
        • 💬 Esta é a única música da banda Twenty One Two na lista, bem como a única música lançada em 2017
      97. Broken Hearts Parade
        • 🎤 Good Charlotte
        • 💽 Good Morning Revival (2007)
        • 🆕 Nova na lista
      98. Seguindo Estrelas
        • 🎤 Paralamas do Sucesso
        • 💽 Uns Dias Ao Vivo (2004)
        • #135 na lista de 2012
      99. Movielike
        • 🎤 Jimmy Eat World
        • 💽 Invented (2010)
        • #160 na lista de 2012
      100. Ocean Avenue
        • 🎤 Yellowcard
        • 💽 Ocean Avenue (2003)
        • 👎 #64 na lista de 2012
      101. Just a Kiss
        • 🎤 Lady Antebellum
        • 💽 Own The Night (2011)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única aparição de Lady Antebellum na lista
      102. Killing Me
        • 🎤 The Kooks
        • 💽 Junk Of The Heart (2011)
        • 🆕 Nova na lista
      103. Dancing Queen
        • 🎤 ABBA
        • 💽 Arrival (1976)
        • 👎 #65 na lista de 2012
        • 💬 Essa é a única música de ABBA na lista (0,51% de importância); músicas “celebratórias” como essa são apenas 2,5% da lista, a mesma quantidade de músicas “narrativas” – no entanto, estas são mais importantes no ranking que aquelas (2% contra 1,35%)
      104. Secret Smile
        • 🎤 Semisonic
        • 💽 Feeling Strangely Fine (1998)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única aparição da banda Semisonic na lista
      105. Stop And Stare
        • 🎤 OneRepublic
        • 💽 Dreaming Out Loud (2008)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 OneRepublic aparece duas vezes na lista (importância de 0,96%)
      106. Coffee And Cigarettes
        • 🎤 Jimmy Eat World
        • 💽 Invented (2010)
        • #124 na lista de 2012
      107. In The End
        • 🎤 Linkin Park
        • 💽 Hybrid Theory (2000)
        • #184 na lista de 2012
        • 💬 Linkin Park aparece duas vezes na lista, com 1,17% de importância
      108. Linger
        • 🎤 The Cranberries
        • 💽 Everybody Else Is Doing It, So Why Can’t We? (1993)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 The Cranberries (0,54% de importância) aparece uma vez na lista apenas, com esta música que é a única de 1993 e uma entre 3 da Irlanda no ranking (importância de 0,8%)
      109. Torn
        • 🎤 Natalie Imbruglia
        • 💽 Left of the Middle (1997)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música da Natalie Imbruglia na lista
      110. All The Small Things
        • 🎤 Blink 182
        • 💽 Enema of the State (1999)
        • #173 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única música de Blink 182 na lista
      111. Rolling in the Deep
        • 🎤 Adele
        • 💽 21 (2011)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Adele aparece duas vezes na lista (0,81% de importância); o ano de 2011 tem 2,09% de importância, com 5 músicas
      112. Illusions
        • 🎤 Shout Out Louds
        • 💽 Optica (2013)
        • 🐣 Não existia na época da lista anterior
        • 💬 13 músicas nesta lista são como estas, lançadas após 2012; 6 delas estão entre as 100 primeiras, e 2 delas, entre as 50 primeiras
      113. Jesus of Suburbia
        • 🎤 Green Day
        • 💽 American Idiot (2004)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 American Idiot é o álbum repetido menos importante da lista (0,14%); Green Day, no entanto, aparece três vezes no ranking, com importância de 0,91%
      114. Summertime
        • 🎤 My Chemical Romance
        • 💽 Danger Days: The True Lives Of The Fabulous Killjoys (2010)
        • 👎 #29 na lista de 2012
      115. Playing God
        • 🎤 Paramore
        • 💽 Brand New Eyes (2009)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Surpreendentemente, já que os anos de 2008 e 2010 colaboram com várias músicas nessa lista, o ano de 2009 conta com apenas duas, tendo 0,74% de importância
      116. Don’t Stop Dancing
        • 🎤 Creed
        • 💽 Weathered (2001)
        • 👎 #26 na lista de 2012
        • 💬 Com o segundo álbum (repetido) menos importante da lista, Creed emplaca três músicas na lista e assim tem 1,36% de importância como banda
      117. O Tempo Não Para
        • 🎤 Barão Vermelho
        • 💽 Balada (1999)
        • 👎 #10 na lista de 2012
        • 💬 Com importância de 0,79%, a banda Barão Vermelho contribui com duas músicas para a lista
      118. Stand By Me
        • 🎤 Oasis
        • 💽 Be Here Now (1997)
        • 👎 #8 na lista de 2012
      119. Headfirst Slide Into Coopestown On A Bad Bet
        • 🎤 Fall Out Boy
        • 💽 Folie A Deux (2008)
        • #152 na lista de 2012
      120. Little By Little
        • 🎤 Oasis
        • 💽 Heathen Chemistry (2002)
        • #176 na lista de 2012
      121. What Are Words featuring Peter & Evynne Hollens
        • 🎤 The Piano Guys
        • 💽 Wonder (2015)
        • 🐣 Não existia na época da lista anterior
        • 💬 Essa é a única música da banda The Piano Guys (0,60% de importância), que em 2012 entrou na lista com uma música também, porém outra; músicas “cover” como esta são 2,5% da lista (importância de 2,37%), e incluem a música #1!
      122. Imagine
        • 🎤 John Lennon
        • 💽 Imagine (1971)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 John Lennon (0,61% de importância) só aparece uma vez na lista, e com esta que é a única música de 1971 da lista
      123. Episode IV
        • 🎤 Jimmy Eat World
        • 💽 Static Prevails (1996)
        • 👎 #38 na lista de 2012
        • 💬 O ano de 1996, com 2,03% de importância, contribui com 5 músicas para o ranking
      124. Vem Pra Cá
        • 🎤 Papas da Língua
        • 💽 Ao Vivo Acústico Papas da Língua (2006)
        • 👎 #33 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única música da banda Papas da Língua na lista
      125. Hurt
        • 🎤 Christina Aguilera
        • 💽 Back to Basics (2006)
        • #118 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única música de Christina Aguilera na lista
      126. Invented
        • 🎤 Jimmy Eat World
        • 💽 Invented (2010)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 “Invented” é um dos quatro álbuns empatados com maior número de músicas na lista (1,08% de importância)
      127. What Sarah Said
        • 🎤 Death Cab For Cutie
        • 💽 Plans (2005)
        • #104 na lista de 2012
        • 💬 Death Cab For Cutie tem duas músicas na lista (0,63% de importância)
      128. Olhando Pra Você
        • 🎤 Drive
        • 💽 Drive (2006)
        • #121 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única música da banda Drive na lista
      129. Faint
        • 🎤 Linkin Park
        • 💽 Meteora (2003)
        • #174 na lista de 2012
        • 💬 Das músicas que estavam no ranking de 2012, esta foi a música que ganhou mais posições!
      130. A Bad Dream
        • 🎤 Keane
        • 💽 Under The Iron Sea (2006)
        • 🆕 Nova na lista
      131. Quase Sem Querer
        • 🎤 Legião Urbana
        • 💽 Dois (1986)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Há duas músicas da Legião Urbana no ranking (0,83% de importância), mas só uma de 1986 (0,65%); os anos 80 em geral são os menos importantes da lista (0,91%), embora sejam mais frequentes que os anos 60
      132. Vou Deixar Que Você Se Vá
        • 🎤 Nenhum de Nós
        • 💽 Acústico 2 (2003)
        • 👎 #37 na lista de 2012
        • 💬 Nenhum de Nós aparece duas vezes no ranking, com 0,73% de importância
      133. Aonde Quer Chegar?
        • 🎤 Moptop
        • 💽 Como Se Comportar (2008)
        • 🆕 Nova na lista
      134. Don’t Speak
        • 🎤 No Doubt
        • 💽 Tragic Kingdom (1995)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música da banda No Doubt na lista
      135. Human
        • 🎤 The Killers
        • 💽 Day & Age (2008)
        • 🆕 Nova na lista
      136. Hotel California
        • 🎤 Eagles
        • 💽 Eagles (1976)
        • 👎 #47 na lista de 2012
        • 💬 Essa é a única música da banda Eagles no ranking (importância de 0,68%); há só mais uma outra música de 1976 (ano com importância de 1,19%), e há 9 músicas dos anos 70, 4,5% da lista com exatos 4,5% de importância
      137. Meu Erro
        • 🎤 Paralamas do Sucesso
        • 💽 Uns Dias Ao Vivo (2004)
        • 👎 #15 na lista de 2012
        • 💬 Os Paralamas do Sucesso têm 2 músicas na lista (1,17% de importância)
      138. Beijos, Blues e Poesia
        • 🎤 K-Sis
        • 💽 KSIS (2005)
        • 👎 #6 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única música da dupla K-Sis no ranking
      139. Anywhere
        • 🎤 Evanescence
        • 💽 Origin (2000)
        • 👎 #21 na lista de 2012
        • 💬 Com duas músicas na lista, Evanescence tem 1,09% de importância
      140. Mouthwash
        • 🎤 Kate Nash
        • 💽 Made of Bricks (2007)
        • 👎 #32 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única música de Kate Nash na lista
      141. Life After Life
        • 🎤 The Pains of Being Pure at Heart
        • 💽 Days of Abandon (2014)
        • 🐣 Não existia na época da lista anterior
        • 💬 The Pains of Being Pure at Heart aparece 2 vezes no ranking (importância de 0,82%)
      142. Naive
        • 🎤 The Kooks
        • 💽 Inside In, Inside Out (2006)
        • 👎 #31 na lista de 2012
        • 💬 The Kooks, com 3 músicas na lista, tem 1,22% da importância
      143. Being Here
        • 🎤 The Stills
        • 💽 Oceans Will Rise (2008)
        • 👎 #23 na lista de 2012
      144. Here With Me
        • 🎤 The Killers
        • 💽 Battle Born (2012)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Os “anos 2010” são a terceira mais importante década da lista, com 15,98% de importância, apesar de serem a segunda década mais frequente
      145. Look What You’ve Done
        • 🎤 Jet
        • 💽 Get Born (2003)
        • #106 na lista de 2012
        • 💬 A banda Jet consta uma única vez no ranking, com importância de 0,72%; artistas australianos são apenas 1% da lista, com 1,26% de importância
      146. Afire Love
        • 🎤 Ed Sheeran
        • 💽 X (2014)
        • 🐣 Não existia na época da lista anterior
        • 💬 Ed Sheeran aparece uma única vez na lista, e tem importância de 0,73%; há apenas 3 músicas de 2014 na lista, concentrando 1,55% de importância
      147. There She Goes
        • 🎤 Good Charlotte
        • 💽 Cardiology (2010)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Com importância de 1,21%, Good Charlotte tem mais uma música na lista
      148. Changes Are No Good
        • 🎤 The Stills
        • 💽 Logic Will Break Your Heart (2003)
        • 👎 #11 na lista de 2012
        • 💬 Com 10 músicas, 2003 é o oitavo ano mais relevante da lista (4,59% de importância)
      149. No Surprises
        • 🎤 Radiohead
        • 💽 OK Computer (1997)
        • #63 na lista de 2012
        • 💬 O álbum “OK Computer” tem 1,21% de importância na lista
      150. O Astronauta
        • 🎤 2ois
        • 💽 A Quarta Ponte (2010)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 2010, com 12 músicas, é o quinto ano mais importante da lista (5,52%); essa é a única música da banda brasileira 2ois (0,75% de importância), que em 2012 também só contou com uma música na lista, mas foi “Ciúmes do Tamanho do Planeta”
      151. Think I Wanna Die
        • 🎤 Someone Still Loves You Boris Yeltsin
        • 💽 Pershing (2008)
        • #132 na lista de 2012
        • 💬 Someone Still Loves You Boris Yeltsin empata com The Killers como banda com mais músicas na lista, mas é a décima-primeira mais importante (2,21%)
      152. You Get What You Give
        • 🎤 The New Radicals
        • 💽 Maybe You’ve Been Brainwashed Too (1998)
        • 👎 #45 na lista de 2012
        • 💬 Essa é a única música da banda The New Radicals (0,76%) na lista
      153. Read My Mind
        • 🎤 The Killers
        • 💽 Sam’s Town (2006)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Sam’s Town é o sexto álbum mais importante, mas o mais relevante dentre os quatro mais numerosos da lista, com 1,68% de importância em 4 músicas
      154. Disenchanted
        • 🎤 My Chemical Romance
        • 💽 The Black Parade (2006)
        • 👎 #22 na lista de 2012
      155. I’m Like A Lawyer With The Way I’m Always Trying to Get You Off (Me And You)
        • 🎤 Fall Out Boy
        • 💽 Infinity On High (2007)
        • 👎 #35 na lista de 2012
        • 💬 Infinity On High conta com 3 músicas na lista (importância de 1,12%)
      156. Sleep
        • 🎤 My Chemical Romance
        • 💽 The Black Parade (2006)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 O álbum “The Black Parade” conta com 2 músicas na lista, e tem importância de 0,78%
      157. Missed The Boat
        • 🎤 Modest Mouse
        • 💽 We Were Dead Before The Ship Even Sank (2007)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Modest Mouse tem 0,78% de importância na lista, e essa é sua única aparição; 2007 é o quarto ano mais importante, com 15 músicas e 6,55% de importância
      158. Friday, I’m in Love
        • 🎤 The Cure
        • 💽 Wish (1992)
        • #66 na lista de 2012
        • 💬 Essa é a única música da banda The Cure na lista (importância de 0,79%), e também a única música do ano em que nasci, 1992
      159. How I Go featuring Natalie Maines
        • 🎤 Yellowcard
        • 💽 Lights And Sounds (2006)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Yellowcard (importância de 1,42%) aparece mais duas vezes na lista
      160. Crystal Ball
        • 🎤 Keane
        • 💽 Under The Iron Sea (2006)
        • #102 na lista de 2012
        • 💬 Keane é uma das 20 mais importantes bandas dessa lista (1,97%), e Under the Iron Sea é um álbum particularmente influente também (1,44%)
      161. Testify
        • 🎤 Rage Against The Machine
        • 💽 Battle of Los Angeles (1999)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Com 0,80% de importância, esta é a única música de Rage Against The Machine; há 5 músicas de 1999 na lista (2,75% de importância)
      162. Wonderwall
        • 🎤 Oasis
        • 💽 What’s The Story Morning Glory (1995)
        • 👎 #12 na lista de 2012
      163. Runaways
        • 🎤 The Killers
        • 💽 Battle Born (2012)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 “Battle Born” é o sétimo álbum mais importante da lista (1,53%; quarto em importância média por música); 2012 conta com apenas outras duas músicas na lista (1,72% de importância)
      164. A Man From Argentina
        • 🎤 Billie the Vision and the Dancers
        • 💽 The World According To Pablo (2005)
        • 👎 #1 na lista de 2012
      165. Fake Plastic Trees
        • 🎤 Radiohead
        • 💽 The Bends (1995)
        • #85 na lista de 2012
        • 💬 Radiohead é uma das 20 bandas mais importantes (2,03%), e só há 3 músicas de 1995 na lista (2,29% de importância)
      166. A Thousand Miles
        • 🎤 Vanessa Carlton
        • 💽 Be Not Nobody (2002)
        • #42 na lista de 2012
        • 💬 Vanessa Carlton aparece uma única vez na lista
      167. Segredos
        • 🎤 Frejat
        • 💽 Amor Pra Recomeçar (2001)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Esta é a única música de Frejat na lista, e foi lançada no mesmo ano que a minha música favorita desta lista: 2001, ano com 8 músicas no ranking e 3,5% de importância
      168. Dinosaurs
        • 🎤 The Stills
        • 💽 Oceans Will Rise (2008)
        • #134 na lista de 2012
        • 💬 Nona banda mais importante do ranking (2,73%), The Stills produziu o álbum mais importante da lista: Oceans Will Rise (2%)
      169. 20 Dollar Nose Bleed
        • 🎤 Fall Out Boy
        • 💽 Folie A Deux (2008)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Fall Out Boy é a sexta banda mais importante do ranking (3,12%), a quarta em número de músicas, e Folie a Deux é o quarto álbum mais relevante (1,82%)
      170. Sexed Up
        • 🎤 Robbie Williams
        • 💽 Escapology (2002)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Robbie Williams aparece duas vezes na lista, e esta é a posição mais alta para a música de um homem (solo), categoria que compõe apenas 3% da lista (3,07% de importância)
      171. The World We Live In
        • 🎤 The Killers
        • 💽 Day & Age (2008)
        • #72 na lista de 2012
        • 💬 Day & Age é o oitavo álbum mais importante do ranking (1,52%), e músicas com temática política são 7% da lista, concentrando 8,49% de importância
      172. I Miss You
        • 🎤 Billie the Vision and the Dancers
        • 💽 I Used To Wander These Streets (2008)
        • 👎 #14 na lista de 2012
        • 💬 2008 é o ano com mais músicas na lista (22); músicas que lidam com a morte são poucas (10), tendo 5,47% de importância
      173. Yesterday
        • 🎤 The Beatles
        • 💽 Help (1965)
        • #50 na lista de 2012
        • 💬 Essa é a única música de 1965, e a música mais antiga da lista; há 17 músicas com no máximo 3 minutos de duração na lista
      174. Misunderstood
        • 🎤 Bon Jovi
        • 💽 Bounce (2002)
        • #107 na lista de 2012
        • 💬 Bon Jovi aparece três vezes na lista (1,31% de importância)
      175. The Hardest Part
        • 🎤 Coldplay
        • 💽 X&Y (2005)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 A música mais importante da lista que, como esta, não estava em 2012, seria a #4: The Long and Winding Road, dos Beatles
      176. O Rock Acabou
        • 🎤 Moptop
        • 🗓️ 2007
        • 🆕 Nova na lista
      177. Walking in Your Footsteps
        • 🎤 Shout Out Louds
        • 💽 Optica (2013)
        • 🐣 Não existia na época da lista anterior
        • 💬 “Optica” é o nono álbum em termos de importância média por música
      178. Mr. Brightside
        • 🎤 The Killers
        • 💽 Hot Fuss (2004)
        • #57 na lista de 2012
      179. The Kids From Yesterday
        • 🎤 My Chemical Romance
        • 💽 Danger Days: The True Lives Of The Fabulous Killjoys (2010)
        • 👎 #16 na lista de 2012
        • 💬 My Chemical Romance é a sétima banda mais importante da lista (3,04%), e “Danger Days” é o décimo álbum mais relevante (1,46%)
      180. How To Save a Life
        • 🎤 The Fray
        • 💽 How to Save a Life (2005)
        • #28 na lista de 2012
        • 💬 14 músicas do ranking foram lançadas em 2005, o terceiro ano mais importante, e canções tendo entre 4 e 5 minutos de duração são as segundas mais numerosas (58) e importantes (31,29%)
      181. More Than Words
        • 🎤 Extreme
        • 💽 Extreme II: Pornograffitti (1990)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Extreme só aparece uma vez na lista, sendo a oitava melhor banda em importância por música; More Than Words é a única música de 1990, e na lista de 2012 ela só aparecia na forma de um cover feito por The Piano Guys
      182. Don’t Go Away
        • 🎤 Oasis
        • 💽 Be Here Now (1997)
        • #49 na lista de 2012
        • 💬 Be Here Now é o nono álbum mais importante da lista (1,49%), e curiosamente 1997 é também o nono ano mais importante da lista (4,51% com 8 músicas), com os anos 90 sendo a terceira década em número de músicas, mas a segunda mais importante (17,74%)
      183. I Belong to You
        • 🎤 Billie the Vision and the Dancers
        • 💽 I Used To Wander These Streets (2008)
        • 👎 #7 na lista de 2012
        • 💬 Billie the Vision and the Dancers é a quinta banda mais importante da lista (3,22%), e curiosamente I Used To Wander These Streets é o quinto álbum mais importante (1,77%); o gênero musical Indie, por sua vez, compõe 13,5% da lista (11,09% de importância)
      184. Parents Livingroom
        • 🎤 Shout Out Louds
        • 💽 Our Ill Wills (2007)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Shout Out Louds é a oitava banda mais importante da lista (2,76%), e o álbum Our Ill Wills tem 1,32% de importância no ranking; músicas de bandas com vocais mistos compõem 11% da lista (11,38% de importância), e a Suécia é o quarto país mais relevante (7,41%), com 13 músicas
      185. Tudo Que Vai
        • 🎤 Capital Inicial
        • 💽 Acústico MTV Capital Inicial (2000)
        • 👎 #9 na lista de 2012
        • 💬 Capital Inicial é a banda brasileira mais importante da lista (1,71%), e seu álbum acústico inclui 3 músicas no ranking (1,38% de importância); 6 músicas desta lista foram lançadas em 2000 (2,92% de importância)
      186. The Scientist
        • 🎤 Coldplay
        • 💽 A Rush of Blood to the Head (2002)
        • #69 na lista de 2012
        • 💬 Coldplay é a décima banda mais importante do ranking (2,63%); 2002 é o sétimo ano mais importante (4,77%), e os anos 2000 são absoluta maioria (60,5% numericamente, 59,05% de importância); músicas com duração entre 5 e 6 minutos são 9% da lista (11,36% de importância)
      187. When You’re Gone featuring Melanie C
        • 🎤 Bryan Adams
        • 💽 On a Day Like Today (1998)
        • #27 na lista de 2012
        • 💬 Músicas com participações especiais são poucas (6), com 2,77% de importância; 6 também são as músicas canadenses (3,95% de importância) e de músicas lançadas em 1998 (3,60% de importância); Bryan Adams aparece uma única vez na lista
      188. 23
        • 🎤 Jimmy Eat World
        • 💽 Futures (2004)
        • 👎 #4 na lista de 2012
        • 💬 Jimmy Eat World é fundamental nesta lista: a quarta banda mais importante (3,64%) e a terceira em numero bruto de músicas (8); 23 é uma das 12 músicas da lista lançadas em 2004 (ano com 5,50% de importância no ranking) e uma das 12 músicas com mais de 6 minutos de duração (5,43% de importância)
      189. Who Knew
        • 🎤 P!nk
        • 💽 I’m Not Dead (2006)
        • #92 na lista de 2012
        • 💬 P!nk figura na lista apenas uma vez; músicas que falam sobre término de relacionamentos representam 15% da lista (13,62% da importância); músicas famosas, por outro lado, são quase um terço da lista (32% numericamente, 40,51% de importância)
      190. Over My Head (Cable Car)
        • 🎤 The Fray
        • 💽 How To Save a Life (2005)
        • #34 na lista de 2012
        • 💬 The Fray tem apenas duas músicas na lista, mas como ocupam posições altas, esta se torna uma banda bem importante (1,84%); “How To Save a Life” é o terceiro álbum mais importante da lista
      191. Rest Of My Life
        • 🎤 Less Than Jake
        • 💽 In With The Out Crowd (2006)
        • #24 na lista de 2012
        • 💬 Less Than Jake está entre as 20 bandas mais importantes da lista (1,47%); In With The Out Crowd também é um álbum um tanto quanto importante (1,20%)
      192. Golden Slumbers | Carry That Weight
        • 🎤 The Beatles
        • 💽 Abbey Road (1969)
        • 👎 #5 na lista de 2012
        • 💬 Essa é uma combinação de duas músicas em sequência num álbum contínuo, e há apenas mais um caso como esse na lista; única a representar 1969, só há mais uma outra música da década de 60
      193. Ain’t It Fun
        • 🎤 Paramore
        • 💽 Paramore (2013)
        • 🐣 Não existia na época da lista anterior
        • 💬 Paramore está entre as 20 bandas mais importantes da lista (1,53%); essa música foi lançada em 2013, segundo ano mais importante dos anos 10 (3,32%) – esta foi a música lançada após 2012 mais bem colocada na lista
      194. The Masterplan
        • 🎤 Oasis
        • 💽 Masterplan (1998)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Oasis é a segunda banda mais importante da lista (3,86%), com 5 músicas ao total; bandas (de todos os tipos) compõem a esmagadora maioria das músicas (92% – 84,46% de importância) no ranking, e rock é o segundo gênero musical mais numeroso (25,5%) e terceiro em importância (21,73%)
      195. Bones
        • 🎤 The Killers
        • 💽 Sam’s Town (2006)
        • 👎 #2 na lista de 2012
        • 💬 The Killers é a banda mais importante (6,37%) e empatada como mais frequente (9 músicas) da lista; 2006 é o ano mais relevante do ranking (13,19%), embora seja o segundo mais frequente
      196. Ize of the World
        • 🎤 The Strokes
        • 💽 First Impressions of Earth (2006)
        • #25 na lista de 2012
        • 💬 Esta é a única música dos Strokes na lista; as músicas do gênero alternativo, contudo, são as mais frequentes na lista (31%) e as mais importantes (37,81%)
      197. The Long And Winding Road
        • 🎤 The Beatles
        • 💽 Let It Be (1970)
        • 🆕 Nova na lista
        • 💬 Contribuindo com 1% da lista, o álbum Let It Be é o segundo álbum mais importante do ranking
      198. Let It Be
        • 🎤 The Beatles
        • 💽 Let It Be (1970)
        • #51 na lista de 2012
        • 💬 Os Beatles são a terceira banda mais importante da lista (3,78%), figurando nela 4 vezes; 20% das músicas são do Reino Unido (22,26% de importância) e 75% das músicas na lista são de bandas com vocal masculino (73,08% de importância)
      199. Kiss Me
        • 🎤 Sixpence None The Richer
        • 💽 Sixpence None The Richer (1997)
        • #20 na lista de 2012
        • 💬 Sixpence None The Richer só aparece uma vez no ranking; 53% das músicas da lista são dos Estados Unidos (50,07% de importância), 85,5% são cantadas em inglês (85,8% de importância), e 6% das músicas são cantadas por bandas de vocal feminino (6,85% de importância)
      200. Por enquanto
        • 🎤 Cássia Eller
        • 💽 Acústico MTV Cássia Eller (2001)
        • #3 na lista de 2012
        • 💬 Cássia Eller só figura uma vez na lista, e é no primeiro lugar! 14,5% das músicas na lista são brasileiras ou cantadas em português (14,2% de importância); 5% das músicas são cantadas por mulheres (solo) (5,62% de importância)

Uma resenha anarquista de “Os Anjos Bons da Nossa Natureza”, de Steven Pinker

O livro “Os Anjos Bons da Nossa Natureza”, de Steven Pinker, é praticamente um clássico instantâneo dos últimos anos. Seu tamanho impressiona – necessário, segundo o autor, para embasar bem suas afirmações, o que ele faz não só com teoria mas também com dados. A ideia fundamental é que a violência tem diminuído ao longo do tempo em todas as dimensões da vida humana; ela não cessou, obviamente, mas não só estamos em uma situação bem melhor do que no passado como a tendência é decrescente (embora não inevitável). Através do livro ele argumenta pela factualidade da afirmação de que a violência diminuiu, e elicita os elementos que levam os humanos à violência e que os afastam dela (os “anjos bons”), descrevendo por fim algumas explicações para o declínio da violência, isto é, que tipo de coisas organizaram os humanos nos últimos tempos de modo a favorecer nossos bons instintos e contrabalançar a influência dos maus.

Como anarquista, minha primeira reação a esse “resumo” foi uma mistura de sentimentos. Frequentemente temos que combater insinuações a respeito de como os seres humanos são ruins por natureza, razão pela qual o anarquismo jamais seria “possível” ou “sustentável”. Qualquer estudo que mostre como os seres humanos não são inerente e inevitavelmente monstruosos parece algo a se verificar rigorosamente mas, a princípio, de braços abertos. Pinker tem a visão que considero mais razoável (e, francamente, mais óbvia) acerca da psicologia humana: não somos nada em si; podemos ser, potencialmente, qualquer coisa. Não digo individualmente – é uma questão de entender a natureza humana em geral como capacidade. É preciso estudar as estruturas de incentivo e os padrões de comportamento e relacionamento mútuo – as instituições sociais, culturais, políticas e econômicas que delimitam nossa percepção, automatizam certas ações, priorizam e valorizam certas ideias – para entender quem somos, e sempre em determinados contextos.

Por outro lado, anarquistas opõem-se ao estado de coisas atual porque grande parte do que vivemos é influenciada pelo capitalismo ou pelo Estado (ambos amplamente concebidos) de uma forma que anarquistas consideram prejudicial. Em outras palavras, estamos sempre apontando pras coisas que estão ruim e mostrando que parcela de culpa pode ser atribuída a essas questões mais gerais, em contraposição à tendência corrente de reduzir tudo a uma questão individual (“ele a matou por ciúmes mas não tem nada a ver com machismo não, ele que tinha doença mental”) ou a voluntarismos (“mas o capitalismo é só o que as pessoas fazem dele”; “acabar com a corrupção é só uma questão de eleger os políticos certos”). Com isso, parece que nos focamos demais em dizer que está tudo uma bela de uma bosta; se alguém chega dizendo que na verdade a vida melhorou, um alerta máximo de senso crítico parece ser ativado. No caso de Pinker, o aparente aliado revela-se um adversário: um dos motivos que o autor cita como explicativos para o declínio da violência, por exemplo, é justamente a criação e a proliferação dos Estados nacionais; e assim, aquele que vem somar à defesa da ideia de que uma coexistência pacífica é possível o faz precisamente com base naquilo que os anarquistas dizem que está nos impedindo de alcançá-la. Dizer que o Estado e a expansão do mercado causaram uma queda de violência constitui basicamente um hobbesianismo light: se não fosse o Leviatã, estaríamos nos matando mais.

Mas não é verdade que, quando algo bom acontece, nossos oponentes adquirem uma nova arma (“Aqui o capitalismo funcionou. Aqui a democracia representativa funcionou”). O fato de que alguma coisa melhorou no mundo, por si só, não diz nada a priori sobre o papel que os Estados nacionais ou a dinâmica do mercado desempenharam na melhoria. Faltando uma análise cuidadosa, pode ser que de fato os mercados e os Estados contribuíram, mas pode ser também que as coisas melhoraram a despeito deles, ou que poderiam ter melhorado mais se não fosse por eles, ou antes se não fosse por eles. Pode ser que o problema sequer teria começado se não fosse por eles.

O autor baseia muitos de seus argumentos em cenários da teoria dos jogos. Para dar um exemplo, temos o famoso dilema da cooperação. Dois agentes racionais e maximizadores de recursos podem forjar uma aliança cooperativa, mas, estando ainda em competição por recursos, não podem depender demais um do outro, pois embora alguma cooperação traga mais benefícios que nenhuma cooperação, assim que um dos aliados deixa de reciprocar o último ato de cooperação, obtém vantagem sobre o outro. Em tese, o maior beneficiado será aquele que antecipar a “traição” de seu aliado imediatamente antes dessa traição — tendo colhido não só tanto benefício quanto possível da aliança como também uma vantagem em seu término. No entanto, se cada aliado antecipar que a estratégia do outro será a mesma, a recursividade do raciocínio leva à impossibilidade de estabelecer a aliança em primeiro lugar: se meu aliado me trairá assim que eu colaborar com o acordo antes dele, não devo fazê-lo de todo. Nesse cenário hobbesiano, como coloca Carole Pateman, “o medo do que a outra pessoa fará (ou não fará) significa que pactos provavelmente não serão cumpridos”. A solução proposta neste caso é um contrato estabelecendo uma autoridade superior, cujo uso da violência contra traidores é legitimado pelas partes e, assim, os aliados podem aproveitar os benefícios da cooperação.

Isso tudo, é claro, é uma construção abstrata extremamente distante da realidade. O “individualismo abstrato é […] uma abstração da realidade social”, diz a Pateman; em outras palavras, abstração da “economia de mercado, capitalista, e [d]o Estado democrático liberal”. É interessante como essa própria dinâmica se perpetua: uma vez instalada (e principalmente se for lida como imutável), os jogadores percebem que a melhor maneira de maximizar seus recursos é ocupar a posição de poder; isso aumenta as probabilidades de alcançar seus objetivos, especialmente se o jogo for de soma-zero; assim, a partir da subjetividade que se constrói através da experiência prática dessa dinâmica relacional, transformar o cenário é menos interessante que trabalhar dentro dele. A concentração de poder não só cria uma dinâmica em que certos mecanismos facilitam para alguns indivíduos (através da força) o direcionamento da capacidade coletiva, como também, por essa própria possibilidade que cria, incentiva-os a não engajar-se em outro tipo de organização. Assim, as próprias regras do jogo que as pessoas estão supostamente sempre jogando (que a teoria dos jogos presume) fazem diferença. Ademais, a racionalidade perfeita só pode ser a premissa de um modelo de ação cujo objetivo é prever o comportamento, pois somente o comportamento racional é previsível. A despeito do fato de que talvez nenhuma outra ciência tenda a participar tanto do mundo que ela descreve, como coloca Graeber, Milton Friedman teria dito que as premissas de uma teoria não são importantes, desde que façam previsões acuradas; quanto a isso, no entanto, teorias econômicas que preveem comportamentos racionais por parte dos seres humanos falham catastroficamente.

De qualquer modo, problemáticas e inerentemente ideológicas como podem ser as análises de teoria de jogos, mesmo o papel do Estado é lido de maneira ingênua nesses cenários. Pinker negligencia como os Estados podem institucionalizar a predação ao invés de impedir que ela aconteça, ao definir e garantir quais grupos terão sua dominação legitimada (vide Foucault; vide Graeber). Pinker faz uma divisão entre empatia e compaixão, o primeiro denotando apenas a capacidade de adivinhar o que um outro agente estaria pensando ou sentindo; mas o que uma lógica de mercado (que, para o autor, “recompensa a empatia”) postula são indivíduos que só podem encontrar uma única utilidade na empatia: dominar adversários. Pinker mobiliza Elias para mostrar como o processo civilizatório diminui níveis de agressão e proclividades para a violência ao aumentar a capacidade de autocontrole, mas deixa de mencionar que parte das conclusões do autor é que a civilização refinou e burocratizou a violência. Progressos nominais são celebrados, e talvez devam ser, mas embora a escravidão seja ilegal em todos os países do mundo, isso não impede que mais de 40 milhões de escravos existam no mundo todo, segundo estimativas (Sobre alguns problemas em relação à formulação das estimativas, ver este texto); mais (em números absolutos) que em qualquer período da história humana.

Outra curiosidade é que as prisões não contam como “violência” para o autor (que faz um esforço para ser o mais inclusivo possível quanto à constituição dessa categoria); são, ao contrário, elogiadas como superiores às punições corporais e efetivas na diminuição da criminalidade. Dispensando o que Foucault diz sobre prisões e delinquência urbana por conta de seu aspecto histórico (enquanto Pinker trata de cenários mais contemporâneos), é preciso muita acrobacia retórica para afirmar que enjaular seres humanos não é em si uma forma de violência. Além disso, prisões tendem a afetar desproporcionalmente os mais pobres e as minorias. Só para citar o exemplo dos Estados Unidos, embora muito possa ser dito sobre nossa própria realidade, não só assessores presidenciais parecem ter confirmado que a chamada Guerra às Drogas foi intencionalmente projetada para perseguir inimigos políticos, numa dinâmica que se perpetua ainda hoje, como havia em 2007 mais adultos negros no sistema penitenciário (em números absolutos) do que escravos em 1850; além disso, em quase todos os Estados há formas de restrição ao voto por parte de pessoas que de algum modo passaram pelo sistema prisional.

Uma visão bastante comum sobre o livro é o de que a discussão é fútil, uma vez que Pinker vai além da pífia cognição dos meros acadêmicos de humanas – ele tem a matemática ao seu lado, o que comprova tudo que ele diz; o resto é resto. Essa defesa vulgar e estúpida desconsidera a imperiosidade da interpretação em toda a empreitada científica – obviamente contar com dados, sempre que possível, é melhor que não fazê-lo; mas não existem fatos brutos, como rochas puras a serem descobertas, dentro das quais escondem-se minúsculos pergaminhos em que o próprio Deus nosso senhor escreveu a Verdade eterna. De considerações internas a externas quanto ao uso enviesado da ferramenta matemática para revindicar autoridade sobre os fatos, fica claro que há várias possibilidades de que Pinker esteja errado. Quem se acha muito “científico” contrapondo “números” a investigações qualitativas, teóricas, históricas, entre outras, está prestando um desserviço à própria ciência, cujo ideal é precisamente de que o conhecimento avança quando confrontamos as conclusões de outras pessoas – a autoridade, à medida que pretende silenciar o debate, prejudica a ciência (e não é preciso ser um anarquista para concordar que incentivar o desafio a verdades estabelecidas, na ciência, é imprescindível). Não estou reclamando aqui de quem se convenceu com os números; estou falando de quem rejeita sumariamente qualquer tipo de crítica que não os questione direta e unicamente.

Se as estatísticas contemporâneas empregadas no livro parecem ser relativamente sólidas, há questionamentos às presunções e generalizações feitas sobre o passado: por exemplo, o descuido metodológico fundamental que embasa, entre outros elementos, seu argumento de que o século XX não foi particularmente violento e sua repetição acrítica da ladainha sobre os instrumentos medievais de tortura, que provavelmente nunca existiram. Além disso, sua forma de comparar proporções de violência (à população) entre diferentes épocas não representa o maior sofrimento humano envolvido em maiores números absolutos: em termos estatísticos, sim, certamente uma pessoa específica tem menor chance de morrer violentamente hoje (se os números estiverem corretos), mas por outro lado isso implica que a morte de dez pessoas em um grupo de mil é o mesmo que a morte de dez milhões em um grupo de um bilhão — uma asserção no mínimo questionável. É conspícuo, aliás, que a “melhor” maneira de interpretar esses dados envolva uma referência ao ponto de vista do indivíduo singular. O autor costuma frequentemente empregar representações da realidade como algum tipo de testemunho histórico (a presença do conto do Rei Salomão e o “bebê com duas mães” na Bíblia, por exemplo, seria evidência de uma maior tolerância à violência no passado). A própria estimativa das mortes violentas como consequência de guerras envolve “questões complexas de causa e efeito, que nem sempre podem ser separadas de julgamentos morais”, escreve John Gray; não se sabe se são incluídos, entre as vítimas da guerra, “aqueles que morrem de fome ou doença durante a guerra ou em período posterior”, ou vítimas de tortura que “sucumbem anos mais tarde a partir do dano mental e físico que lhes foi infligido”, entre outros.

A paz alcançada pode durar se o mesmo curso for mantido, o autor argumenta — a existência do arsenal atômico em sua atual magnitude não seria um problema, dada a improbabilidade de que caia nas mãos de terroristas (quanto a isso, ele faz um bom argumento) ou sejam de fato usadas por superpotências, já que a distribuição de armas nucleares faz com que todos evitem usá-las. Mas não só há quem argumente que esperar que a violência diminua quando seu potencial cresce é absurdo, como hoje sabemos que uma guerra nuclear não foi evitada por negociações racionais durante a Crise dos mísseis de Cuba em 1962, mas sim pela desobediência de um oficial soviético.

A “ideologia” pode ser um “anjo mau” da natureza humana, mas não a do próprio autor: recuperando o ideal kantiano de paz global através do comércio, não há nenhuma consideração da ameaça de violência necessária à proteção da propriedade privada dos meios de produção num mundo cada vez mais desigual e excludente, ou a forma como o orçamento militar consome recursos que poderiam de outro modo ser aplicados para aliviar o sofrimento humano e salvar vidas. Mais que isso, Pinker rastreia a maioria dos fatores de diminuição da violência no planeta (como percebida por ele) à racionalidade, especificamente à valorização iluminista da razão. Mas, como aponta John Gray em outro momento, os autores selecionados por ele para representar seu “humanismo iluminista” escreveram teorias bastante díspares entre si, alguns pouco liberais, a maioria não tão humanista quanto a povos não-europeus — e da seleção ficam de fora autores e movimentos que igualmente valorizavam a razão, como Marx e os jacobinos franceses, que acabam na sacola alternativa de “ideologia”, culpada pelas atrocidades reais. Atrocidades cometidas em nome da razão foram “interpretações erradas do verdadeiro evangelho, ou sua corrupção por influências externas”; o que está em jogo é em última instância um “artigo de fé”. Aqui encontramos a dupla natureza que a ideia de razão adquiriu ao longo da história do pensamento ocidental: por um lado, os “poderes da razão existem, acima de tudo, para restringir nossos instintos mais básicos” e animalescos; eles formariam a base da moralidade, comenta Graeber em The Utopia of Rules. Por outro lado, houve quem atribuísse à racionalidade um caráter “puramente técnico”, como o de “um instrumento, uma máquina, um meio para calcular como mais eficientemente alcançar objetivos que não poderiam eles próprios ser aferidos em termos racionais”. Nesse caso, a razão perderia qualquer capacidade de “nos dizer o que deveríamos querer”, podendo apenas “nos dizer como melhor alcançar” nossas vontades. Graeber divaga:

um argumento racional pode ser definido como um que é simultaneamente baseado na realidade empírica, e logicamente coerente em seu formato. […] Mas se este é o caso, chamar alguém, ou um argumento, de “racional” significa quase nada. […] Você só está dizendo que eles não são obviamente malucos. Mas […] reivindicar que as próprias posições políticas se baseiam em “racionalidade” é uma frase extremamente forte. De fato, é extraordinariamente arrogante, uma vez que significa que aqueles que discordam de tais posições não estão apenas errados, mas são loucos. De maneira similar, dizer que se deseja criar uma ordem social “racional” implica que os arranjos sociais atuais poderiam ter sido projetados pelos habitantes de um hospício. Certamente, todos nós nos sentimos assim uma vez ou outra. Mas essa é no mínimo uma posição extraordinariamente intolerante, uma vez que implica que seus oponentes não estão apenas errados, mas em um certo sentido, sequer saberiam o que significa estar errado, a não ser que, por algum milagre, eles viessem a aceitar a luz da razão e decidissem aceitar o seu enquadramento conceitual e ponto de vista.

O uso das expressões “milagre” e “luz da razão” não é coincidência, uma vez que a primeira escola de pensamento a ver a razão como um valor em si (e a se considerar racionalista) foi a pitagórica. Apesar da associação contemporânea (e justificada) do nome à matemática, os pitagóricos eram essencialmente místicos: suas descobertas de razões matemáticas presentes na geometria, na música e no movimento dos planetas fundamentou não só quase todas as escolas filosóficas posteriores como também a “religião cósmica” da antiguidade tardia, cujo credo principal era a identidade entre Deus, Razão e Cosmos (o que seria adaptado mais tarde à doutrina católica). Assim como Arendt descreve o contraste entre a ordem política imperial em voga e a solidificação do conceito individualista de liberdade, associado ao livre-arbítrio, Graeber compara dois períodos: no primeiro, ainda no contexto do Império Romano (em que “uma única — e aparentemente eterna — ordem legal e burocrática regulava os assuntos públicos”), os intelectuais da “religião cósmica” aspiravam “transcender sistemas terrenos completamente”; já no contexto de um medievo europeu politicamente fraturado, os intelectuais da época “debatiam a exata divisão de poderes dentro de um único e unificado sistema cósmico de administração grandioso e imaginário”; por exemplo, as exatas patentes hierárquicas e atribuições dos anjos. Sua investigação desse legado filosófico-conceitual o leva à conclusão de que a valorização de uma racionalidade “burocrática” (um mero meio, completamente desassociado de um fim) “nunca parece conseguir conter a si mesma a meras questões de raciocínio dedutivo, ou mesmo eficiência técnica”, levando invariavelmente a algum “esquema cosmológico grandioso”; ou seja, a dissociação entre meios e fins é uma artificialidade que não pode ser facilmente mantida. Como observa Lyotard, a forma como o discurso científico procurou legitimar a si mesmo na pós-modernidade deu origem à valorização da própria eficiência como critério de legitimação, conclusão não muito distante da supracitada percepção de Friedman.

As coisas são complexas, e obviamente não é necessário julgar o livro como completamente certo ou completamente errado. É possível que ele tenha de fato percebido uma queda nas taxas de violência, mas que elas não se deram pelos motivos que ele concluiu. É possível que alguns motivos sejam razoáveis, enquanto outros não. E é possível também que a violência como definida por ele, por mais razoável e suportada pelos dados que seja, não leve em conta outros aspectos da violência ou outras consequências negativas em geral do fenômeno que ele descreve, de modo que mesmo que ele esteja certo, uma resposta anarquista à sua conclusão não precise passar por uma “refutação” de seu argumento, mas sim por uma complementação, como uma espécie de adendo: sim, a violência diminuiu. Mas não significa que nossas vidas estejam melhores. De fato, não é porque a violência manifesta diminuiu que nossa vida não seja em grande medida estruturada por uma ameaça de violência constitutiva que não precisa ser efetivada para ser efetiva. Nossa liberdade pode ter diminuído – e, como coloca Gelderloos, a não-violência funciona como uma ideologia extremamente útil à manutenção do status quo. Colocar no mesmo saco de coisas a serem comemoradas a diminuição da violência doméstica e de revoluções armadas contra Estados nacionais é bastante discutível.

Eu tenho até aqui descrito minha relação com o livro em termos bastante ideológicos. Deixo minha posição de leitor anarquista clara desde o início e como me relaciono com a obra em termos de como ela potencialmente afeta as ideias anarquistas como as conheço. Parece, no entanto, que já decidi que o livro é meu inimigo e que estou procurando razões para odiá-lo. Isso seria, na verdade, cair numa das consequências particularmente negativas de teorias pós-modernas ou pós-estruturalistas segundo as quais tudo, principalmente o conhecimento, resume-se a um conflito. Eu entendo como pode parecer que é isso que estou fazendo: em vez de lendo um livro de ciência social enquanto um cientista social, procurando vencê-lo para que meus projetos políticos avancem. Tudo é poder, tudo é ideologia.

Embora eu goste de vários elementos do pós-modernismo, não acho que é preciso ir tão longe. Não entendo que o livro de Pinker seja ideologia nesse sentido simplório – o cara escreveu porque está alinhado ao imperialismo, porque tem motivações nefastas, e daí por diante. Para mim, a ideologia funciona mais a nível de seleção – a ideologia prevalente contribuiu para que o livro tenha sido mais circulado em certos espaços, mas aceito pelas pessoas que o leram; ora, para que o livro tenha sido publicado em primeiro lugar – e também na formação de discursos de modo que algumas coisas podem advir de um senso comum não-questionado, de algum viés de seleção difícil de detectar. Nesse caso, acho que o aspecto ideológico aqui é relativamente transparente: o Estado se apresenta como a possibilidade de uma conciliação e resolução das contradições da vida, o que estaria funcionando espetacularmente bem no caso da violência entre indivíduos e entre grupos. Na medida em que a racionalidade, contudo, é vista como um valor intrínseco e superior a todos os outros, ela pode facilmente ser associada à justificação da violência: vide a questão prisional acima, ou a também supracitada questão da ameaça de violência: o neoliberalismo tratou justamente de privilegiar a criação de um senso de imutabilidade do sistema, e de fortalecer as tecnologias de segurança e vigilância que embasam tal sentimento. A autoridade reforça a confiança na razão: “É apenas o hábito de comandar que permite a alguém imaginar que o mundo pode ser reduzido a algo equivalente a fórmulas matemáticas”, afirma Graeber, “fórmulas que podem ser aplicadas a qualquer situação, independentemente de suas reais complexidades humanas”.

Sendo assim, concluo que a obra reúne insights e observações dos mais diversos campos de conhecimento, e é um esforço admirável; contudo, ela fracassa em suas raízes ideológicas mais profundas – o que constitui a violência, qual é o seu valor e seu lugar na experiência humana, e como interpretá-la como fenômeno que vai além de sua manifestação evidente em nossa organização social.

O que significa dizer que uma intervenção funciona?

O Nexo ouviu um acadêmico que diz que a intervenção federal no Rio de Janeiro vai funcionar. É sintomático que seu nome seja “Dircêo”. O dinossauro político vai além de dizer que a intervenção tem saldo positivo; ele só vê flores nela (deve ser o tipo de branco muito igualitário que “não vê cor” e por isso não enxerga como negativa a disrupção ou interrupção de vidas, em sua maioria negras, que tal intervenção vai acelerar no Rio de Janeiro).

Mas quanto mais você lê a entrevista mais fica claro que sua aprovação tem por fundamento o mundo de fantasia jurídica que o entrevistado habita (presumindo, ainda, no limite da paciência, a boa fé). “Não chega a ser um Estado de Emergência, nem um Estado de Defesa ou um Estado de Sítio”, diz ele, e a diferença é que “não há supressão de direitos”. Ufa! Ainda bem! O tal Estado de Defesa, “que suspende direitos individuais”, não foi declarado. Que sorte! Nem sequer os direitos humanos são suspendidos, veja – tudo “como está na Constituição”.

Este cara de pau está tentando dizer pra população das favelas do Rio de Janeiro, cujos direitos são pisoteados há mais décadas do que existem, que vai ficar tudo bem – ao mesmo tempo em que comenta que, bem, não tem diferença nenhuma entre PM e exército mesmo. “Haverá um controle do judiciário“, diz ele. Qual, o mesmo que condena e mantém preso Rafael Braga?

O pior é que não, não será nem mesmo esse mesmo judiciário. Crimes dos militares serão julgados pela justiça militar porque, “afinal, um militar sabe muito mais do que uma pessoa comum [para julgar]” (antes dessa lei de 2017, crimes de militares contra civis iam a juri popular, se não me engano). Que conhecimento de astrofísica quântica poderia ser esse, se não a mera ciência do fato de que o exército está lá para matar mesmo, e que nenhum outro direito ou garantia pode se sobrepor a esse mandato? Quando dá merda e o cidadão comum pensar “espera, isso não é justo. Isso não deveria ter acontecido e o militar deve ser responsabilizado”, ele estará sendo burro, ignorante; um atraso de vida, um verdadeiro impedimento à livre manifestação das razões de Estado. Assim não dá, Zé.

A direita adora falar de “realismo”, selecionando bem o tipo de realidade que lhe parece absolutamente fundamental (a capacidade de destruir, mandar bala, matar, incendiar, prender, mutilar). Sejamos, pois, realistas: se o tráfico está com armas exclusivas do exército, é porque elas vêm do exército. Sejamos realistas: o exército atua na segurança pública do Rio de Janeiro, naquelas relações que termina uma semana e já volta na seguinte, desde os anos 90, e nunca, nunca jamais foi feito uma investigação séria, com base em dados, dos resultados efetivos dessas intervenções. Em muitos casos parecem ser nulos. Sejamos realistas: não existe tráfico sem sua suposta “repressão”.

Mas quando o realismo cairia bem, o acadêmico recorre ao espetáculo da televisão, por onde ele vê que “quando o Exército vai às ruas no Rio, os bandidos fogem pelos morros”. Me poupe: o jogo do tráfico de drogas independe dos personagens individuais, desses corpos que fogem pelos morros. Dircêo quer uma ação continuada para evitar que voltem. Mas quando cairia bem o realismo de saber que se as pessoas bebem café e cerveja, vejam, elas também usam drogas que hoje são ilícitas, e algumas enormemente menos nocivas que álcool e tabaco, preferem crer que eliminar o varejo da venda de drogas vai fazer muita coisa. Com a raiz do problema sem ser resolvida, ele vai surgir de novo. E de novo. E de novo.

O professor da USP não é ignorante o bastante para não saber que “quanto maior o nível de educação, menor a criminalidade. Quanto mais desenvolvimento e emprego, menos criminalidade”. Ok. Mas por detrás de toda excitação com a violência e a demonstração de força está a insegurança e a ingenuidade de uma criança. “Alguma coisa deveria ser feita”, tateia ele, no escuro das profundezas do abismo de seu “realismo” imediatista; “alguma resposta deveria ser dada”.

Sim, de fato deveria. E é aqui que o “realismo” atrapalha. Realismo pode ser se apegar ao real, mas pode ser também não conseguir imaginar mais nada, não conseguir se desprender do que existe. Mas o que já existe é isso aí, é essa podridão toda com a qual agora alguns parecem surpresos. Você quer mudar ou ficar no que já existe? Tem que escolher um; os dois, não dá.

Uma solução – em curto, médio e longo prazo – vai à raiz do problema e dá trabalho. Custa dinheiro. Deixa os poderosos infelizes. E não é fácil: de fato, eliminar a violência em questão de dias, tornando seu descréscimo duradouro, é utópico – e os tais realistas não cansam de dizer que as utopias são perigosas? Mas imaginar um mundo melhor não é o problema, o problema é – como se faz agora no Rio – apresentar essas “imaginações” como certezas inabaláveis e inquestionáveis que justificam, por sua vez, a violência de sua implementação.

Alterar estruturas arraigadas há séculos de desigualdade, exclusão e descaso é difícil e não seria um processo rápido, sem contradições, sem problemas. A solução de curto prazo é, infelizmente, não mais glamurosa que admitir o fracasso de esperar por ajuda e começar a jornada cujo portal estão bloqueando com cacetetes e tanques. É muito mais fácil (pra quem está no topo, ou longe o bastante do fundo do poço pra não ser atingido pelas gotas de sangue) dizer que esse caminho está fechado, interditado, que na verdade ele nem existe, é uma lenda, um mito, El Dorado – e esperar que quem fica cada vez mais sem saída não procure uma e a encontre no tráfico, que funciona segundo a mesmíssima lógica de um Estado. É fácil, mas não resolve porcaria nenhuma.

Como brancos pobres veem a si mesmos, por John Paul Brammer

Vi essa série de tweets de John Paul Brammer (ironicamente, no Facebook) e decidi traduzi-los porque, embora não é uma ideia nova – na verdade é bem antiga – ela explica de maneira bastante simples o fenômeno global da derrota cultural que sofremos, enquanto anticapitalistas, não só em fazer vencer o contrapoder mas também de minimamente difundir a realidade da exploração econômica.

A explicação marxista, é claro, é que essa “falsa consciência” é consequência direta da dinâmica material. Claro, ideias não mudam o mundo sozinhas, mas são parte da transformação. É ridículo e absurdo falar em “doutrinação marxista” nas escolas se as pessoas saem delas pensando dessa forma… De qualquer modo, urge pensar que atacar “pobres de direita” é uma atitude antipedagógica.


Então, sou um americano-mexicano de uma cidade rural pobre (e majoritariamente branca) em Oklahoma. O que está faltando nesse debate todo? Como brancos pobres veem a si mesmos. Se você está se perguntando como pessoas brancas pobres e exploradas poderiam votar em um cara com um elevador de ouro que vai foder com eles, aqui vai a explicação.

Eles não veem a si mesmos como pobres. Eles não baseiam suas identidades nisso. Eles se veem como “milionários temporariamente envergonhados”. O estigma contra a pobreza é incrivelmente forte. É vergonhoso ser pobre, não ter os confortos da classe média. Então eles fingem não ser pobres. Estão dispostas a mentir pra fazer parecer que não são pobres. Compram coisas para passasr a impressão de que não são pobres.

Na minha cidade, a riqueza não era associada à ganância, mas ao trabalho duro e a uma bondade essencial. Se você tem riqueza material, você é abençoado. Quando eles olham para o Trump, não veem um extorsionista que é rico por causa das mesmas condições que mantêm suas comunidades na pobreza. Eles veem alguém que trabalhou muito e foi recompensado de forma justa com muita fortuna. A maioria dos homens, em especial, pensam que poderiam ser o Trump se não fosse os obstáculos injustos colocados em seu caminho. Homens brancos que não se consideram bem sucedidos o bastante tem tantas desculpas para seus “fracassos”… A ideia de que imigrantes são a razão de sua pobreza, e não os ricos como Trump, é tão apelativa. Ela expurga toda vergonha e toda culpa.

E aqui temos um homem que, para eles, “diz as coisas como elas são” e está disposto a dar nome aos bois que roubam sua prosperidade. Se essas pessoas vissem a si mesmas como uma classe explorada, se a cultura americana não estigmatizasse a pobreza tanto assim, poderia ser diferente. Mas os Estados Unidos misturaram tanto a riqueza com a bondade e a pobreza com deficiência moral que eles não conseguem construir tal identidade. É uma coisa que eles simplesmente não fazem.

O Trump é rico, e portanto de acordo com os critérios americanos ele também é:

  1. Sábio
  2. Justo
  3. Moral
  4. Merecedor
  5. Forte
  6. Esperto

Ele tem que ser.

O capitalismo e o “sonho americano” ensinam que a pobreza é um estado temporário que pode ser transcendido com trabalho árduo e inteligência. Não conseguir transcendê-la, e admitir que você é pobre, é admitir que você não é nem trabalhador nem inteligente. É uma lavagem cerebral cultural.

Então o que acontece se uma classe explorada não quer admitir que é explorada e culpam a si mesmos pela própria opressão? Xenofobia. Ódio de qualquer um que seja “diferente”, gays, trans, negros. Essas pessoas estão erodindo a “bondade” americana. E se apenas eles parassem de arruinar os Estados Unidos, então o perfeito projeto americano poderia voltar a dar certo e a prosperidade retornaria.

Estou dizendo pra você, como alguém que passou quase a vida toda nesse ambiente, se vocẽ acha que centros urbanos são “bolhas”… Meu Deus.

Como você equilibra essas realidades, e a que conclusões você chega para melhorar a vida de ambas, eu não tenho como saber. Ainda assim, temos que entender a identidade que a classe trabalhadora branca construiu pra si mesma, porque, bem, ela se opõe completamente à realidade.

Porque o Trump não vai enriquecê-los. Mesmo que ele deporte todos os “marrons”. Ele não vai lhes dar o que eles esperam.

A autogestão contra a burocracia eleitoral: um breve relato de caso

Atenção: tentarei “anonimizar” a história o máximo possível, embora creio que qualquer um, tendo determinadas informações contextuais, possa saber do que estou falando, talvez até de quem eu esteja falando. De qualquer forma, o importante é o conteúdo das ideias; meu objetivo foi refletir um pouco sobre a conexão entre algumas coisas que estou lendo ultimamente e esse pequeno contato com uma experiência prática.

Recentemente enviei um email para um coletivo ativista perguntando como colaborar com suas atividades. Eles me convidaram para um debate sobre as práticas de autogestão de um centro acadêmico (CA), que estavam sendo questionadas por um grupo de estudantes do curso. O debate, no caso, foi convocado por esses estudantes, não pelo CA.

Cheguei no local sem conhecer ninguém, e por isso resolvi ficar “só observando”, quieto no meu canto. Não é só uma questão de “lugar de fala” ou coisa parecida; uma conversa de início teórica (caso em que eu certamente teria subsídios para participar) foi lentamente adquirindo nuances mais concretos quando se começou a discutir os problemas e a realidade específica daquele CA, sobre o qual eu nada sabia.

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Espero não ter parecido muito esquisito, lá de boa, só na minha. Photo by Nick Kenrick..   

Alguém teria quinze minutos para falar em defesa da autogestão, outro alguém quinze minutos para uma fala contrária, e todos teriam oportunidade de falar por dois minutos, caso se inscrevessem. Havia com folga mais de quarenta pessoas na sala, então o pouco tempo individual justificou-se (e era possível falar mais de uma vez de qualquer forma). Apesar disso, não posso deixar de observar que essas regras me pareceram mais apresentadas que propostas.

Lados e temas

No começo, ninguém falou nada em defesa da autogestão; leu-se apenas uma nota seca do CA, o que não levou nem um minuto. Parecia ter sido feita por um assessor de imprensa; eu não discordava de seu conteúdo, em princípio, mas ele vinha num pacote extremamente formal e brando. De início fiquei preocupado: será que não havia ninguém para defender a autogestão? Um debate de um lado só foi arranjado por direitistas?? Não é contraditório estar disposto ao debate e não fazê-lo de fato??!! Oh, céus, que diabos estava acontecendo?????

De qualquer maneira, a representante de uma entidade estudantil fez uma fala que se resumiu a:

  • Uma crítica da Revolução Espanhola, em que os anarquistas aparentemente se renderam ao governo burguês em vez de destruí-lo porque lhes faltou, num momento crítico, uma proposta de organização que pudesse substituí-lo – no mínimo um engano, no limite uma mentira; a CNT e a FAI “entregaram seus cargos” no Estado republicano precisamente porque não concordavam com sua existência e julgaram que possuíam força suficiente para levar a cabo a autogestão. Que foi, aliás, muito bem sucedida antes de sofrer uma derrota militar.
  • Uma crítica ao processo decisório com base em consenso como se ele fosse uma votação unânime – o que é outra caracterização enganosa – e como se ele não apenas exigisse muito de cada indivíduo, sendo excludente na prática, como também fosse ineficaz.
  • Uma defesa da democracia como um processo adversarial de debate de ideias, legitimado pelo consentimento materializado no processo eleitoral, e salpicado com uma pitada de idealismo em relação à ideia de representação de mandato imperativo (ou “de base”).
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UghPhoto by Alex W McCabe

Depois disso, vários defensores do CA começaram a fazer colocações contrárias a essa fala. Os partidários de outros modelos organizativos começaram a ficar mais específicos, dizendo o que não estava lhes agradando no CA. Muitos – todos, na verdade – que defendiam a autogestão admitiram que um dos elementos preponderantes para seu bom funcionamento é justamente a autocrítica, e que é preciso sanar os problemas levantados. Apesar da especificidade, a reunião não necessariamente tornou-se um muro de lamentações, e os defensores de modelos gestionários alternativos (mainstream em qualquer outro espaço, na verdade) ainda defenderam algumas coisas positivas que estes poderiam trazer e que, ao seu ver, não estavam sendo contempladas.

Como escreve Graeber em The Utopia of Rules, as burocracias também têm suas vantagens. Elas podem ser produtivas. Um estudante disse que “uma das maiores dificuldades da autogestão é que é um sistema que depende das pessoas envolvidas nele”. Isso reflete algumas observações minhas sobre a simetria entre o anarquismo e o (neo)republicanismo: em vez de ser um sistema “autorreplicante” (que não depende de nenhuma atuação individual; em certo sentido, uma burocracia bem lubrificada), o anarquismo é um sistema de incentivos que depende de iniciativas individuais para se manter. Adoraria mostrar o texto que fiz sobre isso, mas ainda pretendo publicá-lo em formato acadêmico (colocarei o link aqui quando ele estiver disponível um dia).

Mais tarde, alguém que observou o quanto esse debate entre diferentes propostas de modelo organizacional tem a ver com – surgiu a partir de – uma degeneração de mais longo prazo nas relações de proximidade entre as pessoas. Esse argumento, defendido de forma um tanto quanto carismática (“chapa é só pra cabeça, galera”), é essencial. Antes de me voltar para isso de maneira teórica, assinalo que na prática do encontro me parece que todos, ou ao menos muitos, reconheceram a importância de refletir como a organização horizontal do CA, que em tese deveria ter favorecido precisamente isso, acabou falhando nesse aspecto.

Liderança e circulação de informação

“A liderança sempre vai existir, mas depende do que está sendo discutido (do contexto)”. Isso aqui também é extremamente importante. Um dos argumentos da representante da entidade estudantil foi que sem uma estrutura rígida, grupinhos informais acabariam operando como autoridades de facto e os indivíduos ficariam a mercê dessas estruturas menos transparentes de poder. Em suma, ela, como aliás muitos outros, não entenderam Jo Freeman. Novamente, eu não poderia recomendar The Utopia of Rules mais, e sinto que fará bem citá-lo (traduzindo-o; no link há três parágrafos você encontra o original):

Quase todo mundo que não vem de um pano de fundo explicitamente anti-autoritário […] leu o ensaio de Freeman de maneira completamente errada, e o interpretou não como um apelo por mecanismos formais que garantam a igualdade, mas como um apelo por uma hierarquia mais transparente. Leninistas são notórios por esse tipo de coisa, mas liberais são tão ruins quanto eles. Perdi a conta de quantas discussões já tive sobre isso. Primeiro, o argumento de Freeman sobre a formação de panelinhas e estruturas de poder invisíveis é visto como uma defesa da ideia de que qualquer grupo com mais de vinte pessoas sempre terá panelinhas, estruturas de poder, e pessoas em cargos de autoridade. O próximo passo é insistir que se você quer minimizar o poder de tais panelinhas, ou quaisquer efeitos deletérios que essas estruturas de poder possam ter, a única forma de fazê-lo é institucionalizá-los: pegar o grupinho que já existe na prática e transformá-los num comitê central […]. É preciso tirar o poder das sombras – formalizar o processo, inventar regras, fazer eleições, especificar exatamente o que o grupinho pode e não pode fazer. Dessa forma, ao menos, o poder será transparente e deve “prestar contas” […]. Ele não será de modo algum arbitrário.

De um ponto de vista prático, militante, essa prescrição é obviamente ridícula. É muito mais fácil limitar o poder que panelinhas informais podem obter ao não lhes conceder status formal algum, e portanto nenhuma legitimidade; quaisquer “estrutura formais de prestação de contas” que se imagina que irão conter as panelinhas-que-viraram-comitês são muito menos eficazes quanto a isso, principalmente porque acabam legitimando e portanto aumentando enormemente o acesso diferencial à informação que permite pessoas em grupos que de outro modo seriam igualitários a ter mais poder para começo de conversa. […] Estruturas de transparência inevitavelmente começam a se tornar estruturas de burrice no momento em que isso ocorre.

Voltando ao que o próprio aluno comentou sobre a questão, é exatamente isso que eu quis dizer no meu post sobre liderança. A liderança não se trata de pessoas e suas características, mas de contextos de decisão; ela é um fenômeno coletivo, não um traço de personalidade ou um trabalho a ser feito, um cargo. Definir de maneira rígida quem deve exercer esse papel é perder a potência de fazer com que líderes emerjam organicamente em cada contexto, o que torna os processos de decisão e execução inclusive mais eficientes.

Algo que Graeber também comenta com frequência (em Um Projeto de Democracia, por exemplo) é a questão do acesso às informações e como isso é importante para manter uma estrutura horizontal e igualitária. Muitos estavam reclamando da existência de um grupo [de facebook] fechado, inclusive com publicação de atas nele em vez de em espaços abertos, deliberações feitas por meio dele – e, aliás, que muitas vezes não era publicada uma pauta prévia das reuniões, apenas a ata posterior. Não tenho como avaliar a exatidão de todas essas acusações; isso não ficou claro pra mim a partir da interação entre os estudantes, e alguns disseram que o grupo era puramente logístico e não se deliberava nada por meio dele. Contudo, se alguma parte disso for verdade, isso é obviamente execrável e claramente constitui um obstáculo à operação saudável de um grupo autogestionado.

No entanto, defender que a solução para isso é oficializar precisamente essas práticas negativas – o grupinho que se arroga o poder decisório – é bizarro. É trocar a liberdade (que não se dá aqui necessariamente na chave negativa de Berlin) pela esperança de que pelo menos, quem sabe, o grupinho no poder será o meu.

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Photo by pittaya

A diferença entre representação e modelo representativo

Muitos criticaram o CA, por exemplo, por ter reuniões em horários ruins, deixando alunos do curso noturno, na maior parte, impossibilitados de participar. Esses alunos que não iam às reuniões gostariam de ter uma forma de colocar pautas e conseguir influenciar decisões, diziam – sentir-se, enfim, representados. “A autogestão não exclui a representação”, replicou uma aluna. Como brilhantemente recupera Cohn em seu ótimo livro, embora os anarquistas reconheçam certos perigos com um modelo político baseado em representação, eles não rejeitam o conceito em si. A estudante em questão, se não me engano hoje na pós, mencionou que diversos interesses e pautas podem ser representados junto ao CA – e que, aliás, sua estrutura atual permite uma porosidade muito maior a uma diversidade de pautas do que um esquema com representantes rigidamente definidos, chapas, eleições, etc. Como isso acontece, e por que não parece estar sendo o caso desse CA, ao menos para os estudantes que não se sentem representados?

Deixando de lado a possibilidade de sugerir pautas remotamente ou por meio de colegas, o problema poderia ser amenizado com mais reuniões, variabilidade nos horários – há uma série de coisas que se poderia fazer nesse sentido, na verdade; não é como se faltasse criatividade para o brasileiro quando se quer resolver um problema. O que não faz sentido é alterar o sistema de gestão, uma vez que isso não efetiva a participação dos desafetados mas pelo contrário a torna desnecessária: quero poder votar em pessoas que façam as coisas por mim, para que eu não precise (embora possa) ir às reuniões e ter o trabalho de colaborar para obter os resultados que eu quero.

Seria generoso demais dizer que a representante da entidade estudantil falou de “prestação de contas” no sentido de um mecanismo de recall, como se poderia esperar de alguém que cita o mandato imperativo, porque em nenhum momento ela disse com todas as letras que, caso o programa da chapa não seja cumprido, a chapa deveria perder o poder; apenas que, havendo um programa eleito, os eleitores podem “cobrar” sua execução (o que deve nos trazer os mesmos efeitos de ter dito “fica, mas melhora” para a Dilma no topo de um carro de som ou assinar petições da Avaaz para o Congresso). Mas aí as armadilhas e os alçapões de sempre vêm à tona: se os eleitos não cumprem o programa, tentativas de substituí-los antes do próximo momento eleitoral oficial podem ser vistas como golpes, não como a base cobrando seus representantes que façam o que prometeram (e não importa se na próxima eleição eles saírem: na prática, o resultado de qualquer jeito é a falta dos efeitos prometidos, e a esperança por mais sorte da próxima vez, o único remédio). Justamente pelo efeito de panelinha (que só tende a se acentuar, se formalizado), a diferença no acesso à informação cria o efeito de estupidez burocrática que Graeber menciona acima, e permite aos eleitos que se posicionem como representantes fiduciários, o que é na verdade bastante lógico e racional: “vocês me escolheram para representá-los, então confiem em mim quando digo que, estando aqui nesse cargo, eu sei de coisas que vocês não sabem. Eu estou envolvido, e vocês não. Então ouçam, e confiem, porque eu sei o que é melhor para vocês”.

Não se trata de burocratizar, nem de tomar o poder, nem de tornar o CA autoritário, responderam alguns. Trata-se de organizar melhor, só. Mas a questão é que não importa o quanto a boa vontade dos eleitos vai fazer com que o CA continue aberto (a novas ideias), vibrante, diverso; a eleição estabelece um enorme trunfo que pode ser usado, se não violentamente mas a nível de retórica, para calar o dissenso e contrariar a base. Imagine uma regra jurídica determinando que o testemunho de um policial, por si só, deva ser considerado suficiente como prova condenatória em processos penais. Não me venha dizer que os policiais serão bonzinhos e não vão usar isso contra pessoas das quais eles não gostem (e eles não costumam ir muito com a cara da população negra): a questão é que não é bom que essa seja a regra!

Oh, espera… Essa regra existe. Libertem Rafael Braga.

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Um exemplo menos deprimente. No prédio onde moro, o regimento interno não costumava especificar um período de “perdão” de advertências e multas. Mantendo o mesmo regimento por dois, cinco, dez anos, temos uma situação em que eu posso levar hoje uma advertência escrita por um determinado comportamento, e fico sujeito a levar uma multa se repeti-lo daqui a dois, cinco ou dez anos, porque a advertência nunca expira. Será que o síndico me daria uma multa nesse caso? Não sei, provavelmente não. É o que o bom senso preconiza, espero. Mas não se pode esperar que o bom senso funcione contra a regra escrita – porque se o síndico não vai com a minha cara, ele encontrará respaldo nessa “falha estrutural” para me prejudicar. E mesmo que eu consiga me defender com sucesso numa assembleia – o melhor é não ter que passar por essa situação toda, não é mesmo?

Mas tudo bem, e se houver recall? Se o mandato for realmente imperativo? Bem, ocorre que a própria tensão inerente à representação (como nos revelou Pitkin há décadas) é que o representante que não tem a prerrogativa de contrariar sua base não é de fato um representante; e se não o for, a “praticidade” de não ter que participar ativamente da política para obter o que se quer vai pelas cucuias (os alunos vão ter que participar do mesmo jeito, exatamente aquilo que reclamam que é muito difícil de fazer porque trabalham, têm outros compromissos, etc). E mesmo se os eleitos cumprem com o programa, outras pautas, que podem surgir inclusive após a eleição, vão ter (naturalmente) mais dificuldade de se enraizar e se desenvolver. O que um programa eleito, fechado e obrigatório tem a dizer sobre uma nova demanda, que não constava no programa? Os alunos vão fazer um plebiscito? Mas se for assim, por que não uma democracia plebiscitária de uma vez? Aliás, uma das ideias que o próprio CA já tinha considerado, segundo uma aluna, era periodicamente eleger programas, e não cargos. Pode ser um meio-termo interessante. De qualquer modo, há ainda outros problemas associados à alternância: projetos de longo prazo podem se perder se a administração muda (não só pelo overhead, mas porque às vezes quem chegou não tem interesse, mesmo, em dar continuidade ao que estava sendo feito). O que estou dizendo é que a democracia que se quer alcançar com o modelo autogestionado, como apontou a estudante da pós, é estruturalmente mais pervasiva e aberta. Não é preciso que o modelo seja estruturado a partir da representação para que esta ocorra.

Princípios versus eficiência

Uma outra colocação de um aluno (o que se liga, de certo modo, à importância da iniciativa individual e das relações entre os indivíduos em um sistema autogestionado) foi a do “desenvolvimento pessoal”: quando a estrutura exige em si a participação ativa dos indivíduos para que funcione, há um incentivo e uma necessidade de participação que os desenvolve por meio dessa participação, dessa responsabilidade. Isso na verdade é muito importante, pois discutir modelos de gestão implica discutir em alguma medida ideais normativos em relação ao engajamento dos alunos e ao relacionamento entre eles. Que tipo de aluno queremos que a passagem pela universidade ajude a formar? Com que tipo de valores e experiências queremos que eles entrem em contato? Não há neutralidade; não há modelo que “deixe” de fazer isso, que deixe de ser ideológico, enquanto outros seriam. Não: todo modelo tem esse mesmo efeito produtivo, e são valores que sempre estão em jogo. A eficiência do CA, e o quanto ele está respondendo aos anseios dos alunos, obviamente é algo que também conta, e os alunos frustrados não são nem bolsominions nem agentes da CIA tentando desestabilizar um modelo político (eu acho). Mas não há como afastar esse importante aspecto da questão, ao qual retornarei daqui a pouco.

Alguns alunos mencionaram que às vezes certas decisões não são tomadas por falta de uma estrutura decisória em que haja um representante que possa tomá-las (numa instância decisória superior ao CA, no caso). Uma decisão específica foi mencionada como exemplo, e uma aluna então esclareceu que o CA absteve-se da decisão precisamente porque não foi feita uma discussão ampla com a base em relação a isso. Muito se falou sobre a questão da pressa: há um trade-off entre não ouvir ninguém e ser capaz de tomar decisões com velocidade recorde, e ouvir a todos mas demorar semanas para fazer algo. Qual é o ponto de equilíbrio com o qual os alunos estejam confortável – algo razoável, que dê tempo o suficiente para jogar a responsabilidade também nas costas de quem teve toda oportunidade de participar da discussão, mas não o fez – não é algo objetivamente verificável e todo grupo deve lidar com isso, especialmente se há um desejo de ser inclusivo e igualitário (se o modelo já pressupor o poder de uma minoria de tomar as decisões, a tendência é, como nota Graeber, deixar de considerar a base). Embora é preciso pensar recursos e ferramentas para não tornar os procedimentos ineficazes, não se pode “atropelar” o processo de forma a matar essa inclusividade a qualquer custo. Aliás, se por um lado os estudantes frustrados reclamavam da pressa com a qual algumas decisões eram tomadas (“alguns ‘ok’ nos comentários do facebook e pronto, a decisão tá tomada”; alguns estudantes contestaram que o processo seja esse), por outro queriam marcar já para dali a duas semanas uma assembleia que decidisse entre os modelos de gestão. Menos de um mês para decidir pela reversão de um modelo político que funcionava bem há uma década, sendo inclusive elogiado pela representante da entidade estudantil?

As raízes da frustração

O que compreendi em geral, especialmente mais para o fim da roda de conversa, é que há uma frustração por parte de muitos alunos por não estarem sendo ouvidos, por não sentirem que têm poder efetivo por meio desse modelo de gestão. Há três razões pelas quais isso poderia estar acontecendo, duas delas sendo na verdade variações possíveis de uma só.

Em primeiro lugar, a acessibilidade e a transparência das reuniões e dos mecanismos decisórios. Quanto a isso, todo o grupo concordou que é preciso refletir e melhorar. E, diga-se de passagem, adotar um modelo de gestão eleitoral faria pouco para corrigir esse problema.

Em segundo lugar, alguns acusaram o CA, em resumo, de “groupthink”: uma grande resistência a ideias divergentes por conta de um pensamento convergente de uma maioria (ou maioria percebida), que reforça a si mesmo e acaba conectado inclusive à identidade dos membros (divergências podem ser vistas como rudes, hostis, ofensivas, até mesmo mal-intencionadas). Não tenho a mínima condição de saber se isso está mesmo acontecendo, embora isso não seja incomum em qualquer agrupamento. Contudo, se essa for uma leitura errada ou uma retórica enganosa, há ainda uma terceira possibilidade: a maioria simplesmente não concorda com as ideias divergentes. Talvez elas nem sejam tão boas assim para começo de conversa.

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Photo by Richard Masoner / Cyclelicious

Agora, vejam: seria muito injusto não dizer, mais uma vez, que não faço ideia de qual dessas duas opções está mais próxima da verdade. Não quero pintar nenhum estudante frustrado como um ser malévolo que, não conseguindo efetivar sua vontade no grupo, busca mudar suas regras para ter o que deseja. Ainda que esse fosse o caso, veja, não é uma questão de o bem contra o mal: isso faz parte da política.

Então é possível que, do contingente de pessoas que vá às reuniões do CA, certas ideias minoritárias encontrem uma resistência teimosa e preconceituosa, o que frustra aqueles que possam ser até hostilizados por dizerem o que pensam. Mas é possível também que esses estudantes simplesmente foram derrotados no debate de ideias. As outras pessoas da reunião, que não têm obrigação de fazer o que não querem (this is precisely the point!), não querem fazer o que está sendo sugerido, ou ao menos não pensam que o CA, como grupo, deva endossar essa sugestão.

O que aconteceria se a chapa desses estudantes frustrados perdesse a eleição? Será que tentariam voltar ao método autogestionário para ter mais chance de efetivar suas ideias? Isso tudo é curioso porque a única coisa diferente que a eleição providencia é uma espécie de critério matemático que os faz aceitar melhor a derrota. Sem resultados obtidos a partir de um método circunscrito, eles podem continuar culpando outras coisas, e outras pessoas, por seus fracassos. Podem sentir que é tudo uma conspiração, já que há “muita gente” insatisfeita e quem sabe toda essa gente seja, na verdade, uma maioria (!) que está sendo aviltada pelos usurpadores antidemocráticos acomodados com seus sombrios privilégios.

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ABRAM OS ÓLEOS! Photo by Sikachu!

Armados com essa retórica, o “verdadeiro sistema democrático” seria aquele que, por coincidência, eles sentem que lhes daria mais chances de conseguir efetivar seus planos. O que é mais democrático? Precisar chegar a um consenso quanto a uma proposta que seja razoável para todos (isto é, que não ofenda fundamentalmente os princípios de ninguém), ou precisar apenas de 50% + 1 do grupo para adquirir o direito de levar uma ideia ou projeto adiante, em nome de todos, apesar de objeções, algumas possivelmente profundas?

Mas, de novo, isso é normal: querer levar a cabo seus planos, seus projetos. É política. Mas são valores que se tem também; prioridades. Agora, se eles defendem o modelo eleitoral como mais democrático por princípios, por estratégia ou por cansaço, tanto faz: o que importa é que isso tudo é causado por um problema de relacionamento dentro do grupo. É uma falha de execução se, durante a deliberação, certas pessoas sintam-se tão frustradas que cogitem “dar um golpe na autogestão” (hahahaha, BRINCADEIRA! Ai ai…), independente se há ou não groupthink. Se os frustrados não estão sendo ouvidos porque não são respeitados, não são levados a sério, porque as pessoas não vão com suas caras… Isso é um grande problema, mas é algo que um modelo eleitoral não vai consertar. Na verdade, é mais provável que só faça piorar. Especialmente porque o problema já começa quando a lógica de vitória / derrota, de soma-zero – própria do sistema eleitoral! – torna-se prevalente dentro do sistema de consenso, que busca justamente ser uma alternativa a isso.

Mas é importante ressaltar, retornando agora à questão do tipo de aluno, e comunidade, que se quer construir, de que maneira o modelo autogestionário não só depende de relações de um tipo específico entre as pessoas mas também ajuda a construí-las. Por exemplo: apesar da má reputação que o “bloqueio de uma única pessoa contra todo mundo” tem (e, de novo, isso é geralmente um espantalho), há um certo quê de lógica nela que é importante analisar: se eu sei que qualquer um tem o poder de bloquear uma decisão, eu não posso me dar ao luxo de não levá-lo a sério, de não respeitá-lo, de não tentar entendê-lo e não tentar, também, de alguma forma, contemplá-lo. É claro que há limites de bom senso; se o mecanismo estiver sendo usado de má-fé, de maneira leviana, de modo a sequestrar o processo com vistas a conseguir vantagens pessoais, o grupo vai fazer bem em passar por cima dele. Mas se o mecanismo do bloqueio for respeitado tanto quanto possível; se for presumida uma boa fé em relação a essa benesse que ele traz; se ele for parte forte da cultura política a ponto de ser considerado rude e ofensivo não levar as pessoas a sério em suas divergências; então tal modelo gestionário tanto exigiria a construção de relações amistosas entre as pessoas quanto ajudaria a construí-las, tanto exigiria pessoas participativas e responsáveis quanto ensinaria na prática a participar e a assumir responsabilidades.

O sistema eleitoral é construído sobre premissas completamente diferentes. Privilegia o exercício individual e atomizado de reflexão, incentiva a competição (e groupthink, aliás, só que na forma de bolhas e câmaras de eco) quando às vezes ela nem faz tanto sentido, implica a terceirização da ação política, torna supérflua a construção de laços entre as pessoas e se apresenta como se fosse óbvio, científico, neutro e natural, quando na verdade é tão contingente e arbitrário, ao nível abstrato, quanto qualquer outro método. A organização do grupo importa. Como Graeber comenta, novamente em The Utopia of Rules, o mesmo punhado de pessoas que, estatisticamente falando, usa muita droga recreativa, pode votar, em sua maioria, para torná-las ilegais; o modo como somos organizados nos incentiva a pensar, agir e nos relacionar uns com os outros de certas maneiras, e oculta de antemão outras possibilidades, moldando em grande medida o horizonte de nossos comportamentos.

É comum ouvir que o processo decisório baseado por consenso ignora que a política – que a vida – é feita de conflito. Eu acho que Habermas é um pouco culpado disso – Luis Felipe Miguel que o diga – mas ele não é anarquista (e aparentemente “consenso” é uma tradução errada, pelo que ouvi dizer). Se o que o consenso tenta fazer – atingir uma matriz de colaboração mesmo entre pessoas que pensam diferente, sem tentar “conquistar” mentes, como observou uma estudante ao rechaçar essa metáfora militar – o que o processo eleitoral ignora é que o conflito existe lado a lado com o entendimento mútuo, com a colaboração. É como ter um namoro em que as brigas não são vistas como partes do processo de voltar a estar bem, mas o estar bem torna-se parte do processo de arranjar novas brigas.

A prova da existência do pudim está em comê-lo

Esse “apresentar-se como natural” do modelo eleitoral, aliás, apareceu de forma pungente quando, mais para o final da reunião, a representante da entidade estudantil comentou que os estudantes deveriam ter a chance de escolher qual modelo de gestão adotar – escolher, é claro, a partir de uma eleição. Obviamente, um estudante comentou que isso é definir a eleição como um processo decisório “raiz” em relação aos processos decisórios. Ou seja, é o mesmo debate, só que no andar de baixo.

Os estudantes já tem a oportunidade de definir as eleições como processo decisório. Exceto que estão fazendo isso por meio de um processo não-eleitoral.

Isso lembra a clássica comparação, viralizada na internet quando Bolsonaro elogiou Brilhante Ustra na televisão, entre defender a democracia na ditadura e defender a ditadura na democracia. Obviamente a analogia não é em grau, e não estou tentando dizer que defensores do modelo eleitoral querem torturar estudantes, por favor. No entanto, a diferença entre modos de relação e sistemas de incentivo de um modelo para outro, como descrevi acima, é sintomático. Uma coisa é defender eleição por meio da autogestão. Outra coisa é defender autogestão por meio da eleição.

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Tecnicamente isso não é uma aplicação da lei de Godwin. Ou é? Photo by Robert Couse-Baker

Uma vez que você troque para um modelo eleitoral e alimente a ideia de que democracia é eleição, você está, digamos, “jogando pra galera” – validando o bem-estar de estudantes que agora sentem que estão fazendo a diferença sem fazer quase nada. E essas pessoas, no contexto de um curso de graduação, são a maioria – ou costumam ser, de qualquer modo; talvez nesse curso seja diferente. Só que a questão é: isso não quer dizer que os interesses delas serão melhor representados, ou que o CA será mais eficiente. O que quer dizer é um reforço cultural ao cultivo de relações mais fracas e menos substantivas entre os estudantes (não que as eleições determinem que esse seja o resultado; apenas o influencia, por si só, nessa direção). E quando isso estiver mais cimentado, será possível, eu me pergunto, que, numa eleição, a maioria dos estudantes vote para mudar para um sistema que exija mais deles, de modo que aqueles que não participavam antes, e vão continuar não participando, perderiam a única coisa que mantinha a ilusão de que estão fazendo alguma coisa?

Difícil.

E essa é a chave para entender por que, no começo da reunião, ninguém quis defender a autogestão, escolhendo deixar passar 13 minutos de tempo de fala e permitindo que o “outro lado” expusesse seus argumentos. Politics in Time, my friends: o passado importa. Cada decisão gera um reforço positivo (positive feedback); eleição reforça eleição, assim como autogestão reforça autogestão.

Essa é a importância de conquistar e construir espaços. Ninguém defendeu a autogestão porque não era necessário: ela tornou-se, naquele espaço, o status quo. Quando Paulo Coelho deu uma mijada em James Joyce, o crítico britânico Stuart Kelly citou Samuel Johnson: “uma mosca pode picar um cavalo, mas o cavalo continua a ser um cavalo, e a mosca não mais que uma mosca”. É isso: a autogestão, nesse CA, tornou-se um cavalo.

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Um belo de um potranco. Mas, é claro, é preciso alimentá-lo bem. E levá-lo ao veterinário (ou, bem, imagino que o veterinário venha até ele? Eu nunca tive um cavalo). E dar-lhe amor e carinho. Photo by Infomastern

A serenidade para encarar os críticos vem da ciência de que a cultura de autogestão criou raízes e é forte. Aliás, é por isso que mesmo estudantes assíduos do CA foram à reunião que não foi oficialmente convocada pelo CA; por isso que o tom da conversa foi sempre bastante respeitoso; por isso que buscou-se entender do que se tratava toda a frustração, por isso que admitiu-se erros, por isso que se buscou pensar o que fazer para melhorar e incluir aqueles que não se sentiam incluídos, contemplados, respeitados. Porque isso é processo decisório baseado em consenso, oras bolas; isso é solidariedade, isso é o tipo de coisa que anarquistas defendem. Se essa reunião tivesse acontecido no contexto de um modelo eleitoral, o que seria bem possível de ter acontecido, como vemos tantas e tantas vezes por aí? Ou, que tipo de atitudes o modelo eleitoral inerentemente torna mais provável que aconteçam? Acusações de que quem reclama do processo é antidemocrático; abstenção em massa por parte dos apoiadores do modelo eleitoral, já que a reunião não foi oficial e não tem legitimidade (e já que o poder de convocar reuniões está na patota eleita, e quem reclama das eleições é antidemocrático, é bem provável que nenhuma reunião oficial seja convocada); e, principalmente, seria preciso vencer eleições para aboli-las em nome de uma revolução no processo democrático. Há razões, como discutido acima, pelas quais as eleições, por natureza, não favorecem esse resultado. Razões pelas quais uma revolução comunista dificilmente passa por uma eleição burguesa. Razões pelas quais Schumpeter, aliás, só julgou que o socialismo é compatível com a democracia se esta for competição entre elites, elites estas que devem ser deixadas em paz para fazer o que bem entenderem, sob a pena de quem sabe não serem mais a elite das elites na próxima eleição.

Um só coração – pero la cabeza soy yo

Em suma, foi possível ter uma discussão enriquecedora que não descambou em, por exemplo, acusações de fascismo por conta de divergências que nada tem a ver com isso. Ah, claro, exceto por uma: um orgulhoso membro do Partido dos Trabalhadores, que dizia que os alunos “tem o direito” de exigir eleições pra decidir entre o modelo eleitoral e o autogestionário (o próximo passo lógico é chamar a polícia, presumo, já que direitos devem ser garantidos?). Ele, membro de uma comissão eleitoral (de outra coisa, que não o CA), brincou que impugnaria uma chapa do MBL (para constrangimento de um dos estudantes frustrados, que estava tentando ganhar troféu de republicano do ano). Quando falavam sobre os problemas do modelo eleitoral, ele me vem com essa: “não é possível que o mundo inteiro esteja errado!”

Olha, eu fiquei quieto o tempo inteiro. Eu juro. Mas, aproveitando que ele estava do meu lado, não aguentei e disse: “não sei se você reparou, mas o mundo inteiro meio que está uma merda”. E emendei: “não é como se não houvesse uma catástrofe ambiental em escala planetária sobre nossas cabeças ou coisa parecida, não é mesmo?”

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Foto obrigatória de um urso polar sozinho numa ilha de gelo para falar de aquecimento global. Aliás… Se os White Walkers em Game of Thrones (SPOILERS!) basicamente representam o aquecimento global, quão simbólico foi que Jon Snow e sua turma tenham ficado presos em uma ilha de gelo enquanto esperavam a Daenerys chegar? Photo by Christopher.Michel

Ele, é claro, vira pra mim e diz: “E quem é você, que nunca te vi aqui na bio?” (confirmando que fiz bem em não falar ao grande grupo). “Não sou da bio”, respondi, “mas estou aqui falando com você, não disse nada na reunião porque não sou daqui”. “Essa gente quer dividir a esquerda”, disse ele, fazendo um gesto com a mão que deixou meio no ar se ele me incluía nessa gente; “mais vale ser sincero e colar logo o adesivo do Aécio e do Bolsonaro no peito”. Eu fui obrigado a rir dessa.

Ao fim da reunião ele me deu uns tapinhas camaradas nas costas, dizendo coisas como “temos que nos juntar para combater o golpe”, etc. A esperança pode ser a última que morre, mas instinto eleitoreiro vem antes dela por pouco: vai ver era isso que a representante da entidade estudantil tinha em mente quando comentou que as eleições não dividem os grupos, mas, pelo contrário, promovem um debate que no fundo os aproxima (… Ela vive no Planeta Terra mesmo ou num artigo da Nádia Urbinati?).

Mas essa carícia de político que beija criancinha, essas boas intenções de quem quer unidade desde que seja sob o seu comando, eu dispenso. Não é esse o tipo de relação que se constrói em um grupo realmente livre e solidário.

A normalidade é o limite da mudança: sobre a audiência do novo transporte público integrado em São José (SC)

Foi um milagre ter sequer sabido que essa audiência ia acontecer. Afinal, poucos ainda sabem que aquilo que ela apresenta – um novo sistema de transporte público que integra toda a parte continental da grande Florianópolis – está sendo discutido há bastante tempo e agora está nas fases finais de planejamento. É o sistema top-bottom de sempre, em que o input populacional, de quem realmente usa o sistema, vem por último.

Cada município da região já teve uma audiência como essa; São José é o último. E a propaganda foi uma beleza: não um evento no facebook, com ampla divulgação também pela mídia tradicional, mobilização com panfletagem nas ruas, etc. Não, não: uma foto no facebook, com o texto todo embutido na imagem. Fotos não são pesquisáveis: eu lembro que vi a postagem e gostei, mas até achar de novo o que era, quando ia acontecer e onde, foi um pequeno parto. Não é à toa que pouquíssimas pessoas foram.

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Tinha bem menos gente que isso… Photo by UNE Photos

Chegando lá, comida: salgadinhos, sanduíches, bolinho de cenoura – até suco tinha. Falei para quem esperava para entrar no teatro (não só o local onde ocorreria a audiência, mas simbólico da audiência como um todo): “eles estão tentando já seduzir a gente com comida. Não podemos deixar isso desviar a atenção do que realmente importa, hein…”. Tendo todos entrado lá pacificados pela barriga, começou a apresentação.

A proposta

O arquiteto responsável por planejar o novo sistema informou que a mudança compreende duas partes: a primeira é a infraestrutura, que já está no estágio final, prestes a implementar (em suma, a duplicação das faixas da via expressa e dois super terminais de ônibus, um em Biguaçu e um em Palhoça). A segunda é o funcionamento do sistema em si, como as suas linhas, os horários, etc. A audiência foi basicamente para tratar dessa segunda parte, que é a proposta para integrar as linhas do continente entre as diferentes cidades da Grande Florianópolis.

O arquiteto fez uma breve exposição teórica sobre o que um sistema de transporte público deve fazer; que tipo de expectativas, por parte dos usuários, ele deve atender. Houve coisas interessantes na exposição, como o fato, por exemplo, de que as calçadas são uma parte essencial do transporte público, pois incidem na experiência do usuário.

Foi nessa parte que ele botou no slide uma ótima frase, que citei de volta em uma das perguntas que lhe fiz:

Qual a disponibilidade que possuímos como sociedade para arcar com os custos de um sistema que atenda às demandas da população?

Ele fez então uma comparação entre os sistemas direto, conectado e tronco-alimentador, defendendo este último para a região da Grande Florianópolis. Aí ele mostrou a situação dos sistemas continentais. Atualmente quatro municípios possuem seus próprios sistemas (São José, Palhoça, Biguaçu e mais outro que não lembro) e 1 intermunicipal, gerenciado pelo governo do estado. A nova proposta é unificar esses cinco sistemas sob uma única licitação, integrando seu gerenciamento.

Ele mostrou a confusão, e a ineficiência, que o sistema vigente (que aliás está em situação irregular, juridicamente) traz. Um novo sistema traria inclusive benesses como o pagamento de diferença tarifária para viagens entre zonas de transporte (em oposição ao pagamento de duas tarifas cheias). As novas linhas – e também as antigas, por vezes reformuladas – foram mostradas no mapa, indicando de que maneira elas serviriam melhor ao público, facilitando por exemplo viagens dentro de São José (que por agora dificilmente são feitas sem passar pelo centro de Florianópolis) e entre outras partes do continente.

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Hmmmmm… Em se tratando de ônibus em Florianópolis, qualquer coisa minimamente boa já parece boa demais para ser verdade. Photo by Knothingz

Sinceramente, várias dessas mudanças me pareceram boas – no entanto, tenho que admitir que minha opinião, especialmente em termos de primeira impressão, foi fortemente influenciada pelo meu viés particular. Meus trajetos são relativamente simples e geralmente entre minha casa, o centro de Florianópolis e a UFSC – muito embora já deixei de fazer várias coisas por não haver uma maneira mais simples e eficiente de se chegar até um determinado lugar do continente (por exemplo, durante o final de semana).

E esse é precisamente o problema, não é? A perspectiva individual.

Quanto mais se pergunta, mais se percebe que as coisas não mudarão tanto

Foi por ela que comecei fazendo as perguntas, pois tínhamos pouco tempo para fazê-las e escolhi dividir o que eu queria dizer em dois blocos. Minhas primeiras questões foram simples. Por que não havia ônibus diretos do continente para a UFSC – ou, dito de outra forma, todos os ônibus intermunicipais tinham que parar no TICEN, obrigatoriamente? Se temos agora uma licitação de 20 anos em descompasso com uma outra licitação de 20 anos em Florianópolis, a licitação do continente não poderia ser feita em um período menor, para que as duas acabem juntas e a integração possa um dia ocorrer? Já que algumas cobranças tarifárias são baseadas também no ponto em que a pessoa salta, haverá duas catracas no ônibus?

Ele respondeu que, em relação a linhas para a UFSC, tudo era uma questão de “negociar” com Florianópolis, e que isso era uma questão pedida com frequência. Sobre a (des)coincidência temporal entre licitações, ele parece não ter entendido a minha pergunta, porque respondeu outra coisa (nem me lembro o quê). Não o culpo, talvez eu tenha expressado ela melhor aqui no post do que na hora. Já quanto à última, ele observou que colocar catracas tanto na entrada quanto na saída atrasaria muito o ônibus e, portanto, o sistema perderia eficiência.

Sabe o que seria melhor? A ausência total de catracas, é claro.

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Photo by Dudu Viana

Outras pessoas falaram. Uma delas, um morador da Avenida das Torres, reclamou do trajeto picotado que o ônibus da localidade faz (o que torna a viagem muito mais longa do que precisaria ser) e questionou quanto à presença do ar condicionado nos ônibus, uma vez que, por experiência própria, ele vê pessoas desmaiarem nos ônibus às vezes quando o calor bate forte. Ah, e, claro, como poderia esquecer: ele perguntou sobre a disponibilidade de horários após as 22 horas.

Isso é uma das coisas mais bizarras da plataforma E do TICEN. Tem sido assim desde que comecei na UFSC, ao menos, que eu tenha percebido. Os ônibus, especialmente do tipo mais comum (que passa pela Leoberto Leal) saem regularmente de vinte em vinte minutos – até às 22 horas, momento em que começam a sair de trinta em trinta minutos. O que é bizarro, considerando que o fluxo grande, das 5 às 7 da tarde mais tardar, diminui consideravelmente às 8 e aumenta depois das 10, quando mais estudantes e mais trabalhadores voltam a sair de seus trabalhos. E o fluxo diminui.

O arquiteto respondeu então que não vai ser um fluxo muito maior, mas será de fato maior (se não, o custo não compensaria). Quanto ao ar condicionado dos ônibus, é “questão de investimento” que, de novo, pode não compensar, e que de início apenas as linhas troncais operariam com ar condicionado. E quanto ao trajeto dos ônibus, ele defendeu que o novo sistema significativamente melhora isso, simplificando trajetos e ofertando mais opções para os mesmos destinos.

Depois foi a vez de um membro do Sintraturb falar. Para ele, nada vai mudar: a licitação é apenas mais uma forma de regularizar o monopólio da máfia de transportes – a Fênix 2. Ele olhou pra mim e disse: “sabe quando que vais poder pegar um ônibus daqui até a UFSC, sem pagar duas passagens passando pelo TICEN?”

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Photo by x-ray delta one

“Nunca”

E aí peguei o microfone de novo.

Saudei o companheiro por suas observações bastante lúcidas (das quais o arquiteto discordou, basicamente apontando que há ganhos substantivos com o redesenho das linhas), e então disse ao arquiteto que há problemas mais profundos nessa questão toda.

É preciso repensar quem é o sujeito do transporte público e quem se beneficia dele. Transporte público não é uma viagem pra Nova York, uma barra de chocolate, um “cineminha”, quer dizer… Não é  uma questão de preferência individual, embora também esteja claramente conectada a isso. É claro que ninguém é obrigado a pegar ônibus por força de lei, e assim há diversas maneiras disponíveis para quem quer evitá-lo – de desistir de ir aos lugares (ou de tentar trabalhar em certos lugares) a se acorrentar a dezenas de prestações de um carro, passando por comprar uma motinho desgraça que seja. Tudo isso, claro, incorre em problemas que todos acabam compartilhando – acidentes e engarrafamento vêm à mente com mais facilidade. Portanto há um benefício social bastante óbvio e amplo no incentivo ao uso do transporte público.

Mas transporte público, de novo, não é só pra passear. Antes mesmo de falar de direito à cidade – tanto como acesso a serviços quanto como reinvenção e ocupação do espaço público – é preciso entender quem se beneficia do transporte público e do transporte em geral, isto é, da estabilidade e eficiência de circulação de pessoas e produtos na cidade. Transporte público é pra resolver principalmente os deslocamentos que compreendem aquilo que só podemos escolher com sorte, da classe média pra cima e olhe lá: os trajetos entre casa, trabalho(s) e, quando há, instituição de ensino.

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Photo by Uma câmera de celular na mão

O tempo todo o transporte público foi tratado como uma ida ao restaurante: temos que fazer o prato mais gostoso possível, com a melhor apresentação, no melhor preço, para que o cliente escolha pagar por ele. Mas meus queridos, nós não somos humanos indo a um restaurante entre muitos: somos porcos comendo ração. Certamente temos interesses individuais na nossa alimentação, mas a ração não nos é disponibilizada porque nós estamos pagando por ela, mas porque nossa “engorda” (o deslocamento da massa trabalhadora pela cidade) beneficia quem vende o nosso bacon. Por que diabos temos nós que pagar, e não quem mais se beneficia com isso?

Uma das falas da plateia foi da parte de um vereador que elogiou o sistema, dizendo que ele vai desenvolver e integrar o continente, o que é de interesse das empresas (e das prefeituras) uma vez que o crescimento da Grande Florianópolis está se voltando a todo vapor para o continente. Mais claro que isso não fica. Sim, é óbvio que as pessoas têm o desejo de se locomover, mas não só a utilização dos ônibus com esses propósitos regulares determina toda a distribuição de linhas e horários (não é eficiente o sistema de transporte que não se volta para isso acima de tudo) como estamos literalmente pagando pra ir dar lucro pro patrão, caramba! Sem falar do lucro das máfias, que fazem com que a planilha de custos seja opaca e maquiada para poder nos extorquir ainda mais a partir de seu monopólio e conluio político com a casta local.

Em suma, todo o projeto foi planejado, com os preços dos patamares que nos foram apresentados  – segundo requisição das prefeituras e do governo do estado – já contando que não haveria subsídio nenhum. Foi exatamente isso que o arquiteto disse: está aberta a porta para que ele exista mais tarde, mas a princípio os preços (que são bastante semelhantes aos já caríssimos cobrados hoje) não teriam qualquer subsídio. Foi aí que me voltei para a frase do início de sua apresentação:

Qual a disponibilidade que possuímos como sociedade para arcar com os custos de um sistema que atenda às demandas da população?

Sim, como sociedade: como podemos exigir que aqueles que lucram com um transporte público de qualidade contribuam para que ele seja mais acessível, mais eficiente, mais limpo, mais tecnológico, mais confortável? Enquanto essa questão não for resolvida, as questões que realmente importa não serão resolvidas: o transporte público vai continuar sendo visto como um produto pela qual as pessoas já devem pagar. Fodidos como estamos todos, em maior ou menor grau, claramente não tem como sair do nosso bolso o preço de um sistema realmente bom e cidadão. E enquanto essa situação perdurar, quem não tem opção vai continuar gastando muito com um serviço ruim; quem tem, vai preferir ser mais um dentro de um carro que polui o ar e ocupa espaço demais por tempo demais junto a outros carros demais. Ou arrisca a morte de moto, no menos pior dos casos eventualmente onerando a nós todos ao entulhar os hospitais traumatológicos.

Quando decidi que já era tarde demais e eu deveria ir embora, encontrei o pessoal do Sintraturb na saída, pegando uns últimos salgadinhos e bolinhos. Eles comentaram que o pessoal de municípios mais distantes, que antes pegavam um ônibus até o TICEN, em alguns casos teriam que pegar agora 3. O plano das empresas é socar gente nos dois grandes terminais – e portanto nos ônibus alimentadores, sem ar condicionado, que vão até eles. Vai ser uma tristeza.

O arquiteto que não me leve a mal: ele aparentemente fez um trabalho bem feito dadas as limitações não só da região como também das forças políticas. Mas todos os seus ganhos de eficiência não vão resolver a questão mais profunda que corrói a política de transporte em todo o país, mas mais intensamente aqui, na região das passagens mais caras do Brasil. E, de qualquer modo, ganhos técnicos em eficiência podem ser implementados a qualquer hora; ajustes sempre precisam ser feitos. O buraco é bem mais embaixo: e quando o ônibus passa por cima, é um horror.

Escola Sem Partido chega a Florianópolis: uma péssima ideia que deve ser combatida

Quase nunca quem quer nos dominar vai dizer isso abertamente, com todas as letras. Até os neonazis de Charlottesville choramingam que não são racistas – como se “nacionalista branco” já não fosse ruim o suficiente, eles sabem que “racista” é ainda mais mal visto.

Agora é precisao ficar alerta com essa loucura de “escola sem partido”. ATENÇÃO: Ninguém quer que o professor chegue em sala e em vez de falar de biologia, ou sociologia, ou física, fale de seu candidato a vereador. E ninguém quer que ele ofenda ou rebaixe a nota de algum aluno que tenha uma opinião política diferente. Mas essa lei efetivamente cria um enorme porrete que vai ser usado pra perseguir professores (já está sendo usado em cidades e estados pelo país inteiro) .

Não existe neutralidade; exigi-la é uma completa maluquice em termos práticos: o que pra um é verdade óbvia, pra outro é “doutrinação” (que, aliás, não é definida de maneira precisa no texto ctrl+c ctrl+v dessa gentalha que propõe esse absurdo). Em vez de fazer das instituições de ensino e pesquisa um local em que várias ideias são debatidas e analisadas, esse projeto patético quer deixar ao alcance de pais e alunos um jeito de forçar o professor a calar a boca. Entenda que qualquer um pode usar disso, não só uma ou outra ideologia, de modo que no fim das contas o professor não vai poder falar mais nada. Ensinou Marx? Não gosto, processo nele. Ensinou liberalismo? Não gosto, processo nele. Falou sobre gênero, não gosto, processo nele. Não falou sobre gênero, não gosto, processo nele. Entendem como esse é um mecanismo que basicamente permite que se vá a um juiz reclamar que o professor não está me agradando? Não importa se no final do processo, por exemplo, quase nenhum seja condenado. Até chegar a essa parte (sem falar das apelações), o professor já vai ter passado por um inferno pessoal em várias escalas: psicológico, econômico, social.

Por fim, sabemos muito bem que o mecanismo da justiça não é imparcial e equânime em seu acesso. É uma burocracia aparentemente igualitária, mas é uma minoria que vai usar desses processos pra intimidar e controlar o que está presente nas escolas. E vamos depender basicamente da cabeça de cada juiz, sem nenhum critério legislativo, o que vai contar como doutrinação ou não (de novo, ainda que você concorde com o espírito da coisa, em termos de lógica legislativa é no mínimo um projeto porco). O pessoal do “Escola sem partido” costuma ser o mesmo que fala que não gosta do Estado metendo o bedelho onde não deveria, mas olha só: eles querem usar da ameaça de força (Estado) pra calar a boca daqueles com os quais não concordam porque, sei lá, sentem que a maioria dos professores é de esquerda. Isso não só é uma MENTIRA – já que existem muitos professores de centro e direita no Brasil inteiro e em todos os níveis – como também significa desistir de ganhar a batalha cultural das ideias através das palavras: “já que não consigo convencer os professores, vou pelo menos calar a boca deles pra que eu possa evitar que o meu filho”, no caso das escolas de ensino fundamental e médio, “sequer saiba da existência de outras ideias”. Quão inseguras (no mínimo) essas pessoas têm que ser pra considerar uma coisa dessas?

E quanto ao ensino superior, que o projeto abarca, é engraçado que o projeto de lei inverte inclusive aquilo que pressupõe. Explico: está ali que o educando é a parte “mais fraca” na relação de aprendizado (não é). Só que se você dá ao educando a oportunidade de virar a vida do professor num inferno por causa de alguma coisa que ele tenha dito enquanto professor, ele acaba de virar a parte significativamente mais forte da relação. No ensino superior o aluno pode literalmente dizer “olha, eu não gostei muito do que você disse na outra aula quando fez um comentário ali sobre a taxa de juros… Se você não me deixar passar nessa disciplina eu posso ter que te processar porque você não apresentou todas as teorias quanto ao assunto…”.

Eu não quero que paradigmas científicos incorretos / ultrapassados (como a criminologia lombrosiana, ou o lamarckismo, ou a teoria do éter, ou a ideia de que o dinheiro evoluiu historicamente a partir do escambo, ou o prescritivismo linguístico, etc) sejam ensinados nas escolas, mas 1) isso se faz com melhoria da formação do professor, descaso eterno no Brasil, e 2) é preciso equipar alunos (de todas as ideias) com o ferramental cognitivo (e material – tipo dinheiro pra que escolas tenham bibliotecas e internet e etc) para analisar criticamente todas as ideias, inclusive pra separar fato de conjectura de opinião e em que medida a ideologia de uma perspectiva incide sobre essas coisas, etc etc etc – que se desenvolva como ser humano, mesmo. Isso não se faz tentando proporcionar pras crianças uma neutralidade que não existe. “Escola sem partido” _É_ uma ideologia (“queremos que seja ensinado só os fatos! Os fatos, no caso, são a sociedade como ela é agora e aquilo que eu acredito sobre ela”). Quanto a isso, este é um excelente texto (A Folha de SP, aliás, está cheia de colunas interessantes sobre o tema, inclusive de defensores dessa bosta).

Esse pessoal quer se vender como a ausência de ideologia. Não comprem essa falsidade. Sim, é razoável não querer pessoas oprimidas na escola por suas opiniões. Ninguém quer isso. Mas essa lei não fará isso!

Pra colegas de direita que estão achando isso tudo muito esquerdista, fecho aqui com um parágrafo maravilhoso de alguém que escreve no Spotniks, Joel Pinheiro da Fonseca (dificilmente dá pra ficar mais de direita sem entrar em extremos estúpidos, tipo o pessoal de Charlottesville):

Jovens terminam o ensino médio sem conseguir compreender um texto minimamente complexo ou calcular frações. O grande problema da educação no Brasil não é que jovens leiam muito Marx na escola, é que saiam da escola sem saber ler. Ao colocar uma corda no pescoço de todos os professores e fazer dessa carreira algo ainda mais estressante e menos atrativo, corre-se o sério risco de prejudicar nosso sistema educacional como um todo. O que já não é bom ainda pode piorar.